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Eu soube que o calendário oficial desta mui bela e serena cidade de Manaus deverá receber o acréscimo de mais uma data comemorativa. Trata-se, se não estou em equívoco, do Dia do Aventureiro e do Desbravador. Confesso que fui assaltado por calafrios de civismo quando me foi dada notícia tão alvissareira. Comecei a vislumbrar o futuro brilhante que se descortina frente à minha terra natal com a implantação de data tão significativa, destinada a perpetuar a memória de quantos, com indômita coragem, avançaram “por mares nunca dantes navegados” e, passando “além da Taprobana”, aqui vieram deixar sangue, suor e lágrimas. Imagine o esforço do aventureiro que, munido apenas de um remo e um capacete, desce num caiaque as revoltas águas do Tarumã Grande. Ou do desbravador que, motosserra em punho, vai rompendo a densidade da floresta para, num passe de mágica, fazer surgir uma favela urbana. Merecedores, sem dúvida, da atenção de nossos legisladores, no seu eterno afã de aprimorar a ordem jurídica com leis de relevância universal.

Tem sido, aliás, recorrente a dedicação de integrantes de nossos parlamentos, em todos os níveis, para o assunto de que se cuida. Ainda outro dia, falei aqui do Dia do Perdão e quejandos, que, aliado ao Dia do Choro, este já implantado, vai por certo contribuir para diminuir as desigualdades sociais e colocar a pátria amada no caminho correto do desenvolvimento. São ideias de indiscutível valor, as quais só nos fazem revelar o alto nível de consciência política que permeia nossas casas legislativas. Em assim pensando e sentindo, foi que, mesmo a partir da minha integral insignificância, deliberei dar modesta contribuição. Elaborei, então, uma lista de datas comemorativas que podem muito bem (quem sabe?) entrar na linha de consideração de tão dedicados patriotas. Teci considerações sobre cada uma delas e quem achar as sugestões de algum proveito pode usá-las livremente, inclusive inserindo-as como justificativa aos projetos de lei que vierem a ser apresentados. Não cobrarei direitos autorais e ainda me sentirei gratificado por ter sido parte de obra tão meritória. Vamos lá:

Dia do Fiscal da Natureza – O adorador da mãe natura geralmente é um incompreendido na comunidade em que vive. A ignorância, reles como é de seu feitio, não hesita em lhe lançar a pecha humilhante de “preguiçoso”. Urge desfazer esse equívoco, dando a esses mansos e pacatos profissionais o reconhecimento que estão a merecer. Afinal, é sinal de sensibilidade exacerbada dedicar horas seguidas à extasiante contemplação das belezas espalhadas pelo mundo.

Dia do Acionador da Alavanca do Sol – Como poderíamos apreciar a arrebatadora beleza do alvorecer se não fosse pela persistência com que atuam esses dedicados servidores? E não é tarefa fácil. Mesmo sendo plana a Terra, como parece ser aos olhos de algumas genialidades modernas, o astro rei não se ergueria se não contasse com a força inquebrantável desses profissionais que, repetindo Arquimedes, usam apenas uma alavanca e um ponto de apoio para o desempenho de seu meritório mister.

Dia do Acendedor de Estrelas – É repetitivo: não há crepúsculo vespertino em que não se veja a partida dos responsáveis pela iluminação do firmamento. Lá vão eles com as suas tochas fazer com que as estrelas possam brilhar, encantando a humanidade com seus raios fulgurantes. Não fora atividade tão envolvente, e teríamos sido privados do lirismo com que Bilac chegou mesmo a ouvir a voz dos astros. Merecem o nosso reconhecimento.

Dia do Enxugador de Gelo – Acho que todos já nos demos conta de quão desagradável é manusear uma pedra de gelo que não esteja rigorosamente enxuta. O objeto tende a escorregar, escapando-se por entre os dedos e relutando em ir repousar tranquilo no copo onde o aguarda uma generosa dose de uísque. Pois muito que bem: devemos aos enxugadores de gelo todos os agradecimentos do mundo pela ingente tarefa de deixar as pedras ou cubos respectivos em estado razoavelmente civilizado. Dediquemos-lhes um dia específico como tributo ao seu trabalho.

Dia do Enfiador de Flatos em Cordão – Na presidência da República, já houve quem cogitasse de estocar ventos como forma de garantir reservas energéticas. Ora, os flatos entram na categoria dos descendentes de Eolo, de forma que é indispensável disciplinar a maneira como eles podem ser colhidos e armazenados. É o encargo do enfiador. Com um barbante, vai ele recolhendo as ventosidades para transportá-las ao depósito geral, onde ficarão em local separado de seus primos mais ou menos distantes, como forma de preservar a integridade olfativa do lugar. Nada mais justo, portanto, que o enfiador seja dignamente reverenciado no dia que vier a lhe ser dedicado.

Para o contexto e dimensão da obra, acho que esta pequena contribuição não é lá grande coisa. Mas fio, também, que, em sendo levada a sério, dará para preencher grande parte da pauta de uma sessão legislativa inteira de qualquer das casas parlamentares que vicejam neste grande país. Tendo em vista a modéstia dos meus conhecimentos, foi o máximo que pude fazer para aviventar o civismo latente de nossos parlamentares.


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