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Quando se estuda os filósofos clássicos, especialmente Sócrates, Platão e Aristóteles, aprende-se que a concepção grega do universo era basicamente intelectual. Existem, entretanto, certos períodos da literatura grega nos quais o conhecimento está presente não apenas como ser racional, mas também como ser espiritual, emocional e religioso.

Antes de apresentar esse outro lado da filosofia, seria conveniente recordar as opiniões filosóficas mais conhecidas a respeito da filosofia racional de Sócrates, Platão e Aristóteles. Na realidade, Sócrates alcançou um elevado conceito espiritual quando, em sua argumentação com Eutifron, que estava processando seu pai pela morte de um escravo, forçou Eutifron a definir a piedade como “aquilo que é caro aos deuses”.

No decorrer da argumentação, Sócrates modificou essa definição, para que piedoso passasse a significar “aquilo que todos os deuses amam”; e ímpio “aquilo que todos os deuses detestam”. Para Platão à verdade é uma ideia eterna; por isso, o contato com o conhecimento verdadeiro é estabelecido pela contemplação. Para ele, a contemplação está condicionada à justa ordenação entre as três partes da alma: a parte do raciocínio, as emoções superiores e nobres, os apetites e paixões.

Aristóteles se diferenciava de Sócrates ao reconhecer duas espécies de perfeição: a intelectual e a moral. A perfeição do caráter moral, para Aristóteles, estava ligada à perfeição do intelecto moral, porque este último é condição daquele. É preciso ser bom para conhecer a verdade. A felicidade vem da perfeição moral, e esta se expressa em atos. Mas a finalidade da razão teórica é a contemplação de Deus, e toda contemplação é divina porque Deus se contempla a si mesmo.

Em seu livro “Por que fazemos o que fazemos? o filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella (2014) afirma que além da contemplação moral e intelectual da divindade, que só é bem conhecida pelos filósofos, existem dois outros fatos esquecidos a respeito da atitude grega para com a religião. Tais fatos são: 1) a filosofia provou ser insuficiente em tempo de crise; 2) o teatro grego, mais que a filosofia grega, reconheceu a importância da espiritualidade na história.

Sempre que, na história, a filosofia se torna cada vez mais abstrata, existem aqueles que ensaiam pela apresentação mais simples de uma regra de vida. Os estoicos acharam Platão demasiadamente sublime, Aristóteles por demais abstrato e teórico. Quando a paz do mundo começou a ser perturbada, surgindo os tempos de aflição, os estoicos cunharam uma filosofia para enfrentá-los. Em certo sentido, o estoicismo era mais religião do que filosofia, preocupando-se mais com o caráter do que com o intelecto.

Por fim, existem três razões para que a filosofia, sozinha, seja insuficiente nos dias de crise. Em primeiro lugar, porque se dirige às elites intelectuais, tornando-se exclusiva e pouca atrativa para as massas. Em segundo lugar, porque a filosofia provê incomparavelmente mais ao intelecto do que às outras faculdades da alma. Ela faz do homem mais um espectador da realidade do que um participante.

Finalmente, em terceiro lugar, a filosofia desencoraja a elite, por ela atraída, de lançar-se à tarefa de converter seus irmãos. A filosofia não é apostólica. Seus seguidores são poucos zelosos; cultivam poucos discípulos. E assim a filosofia se afasta do seu verdadeiro sentido: à vida, o homem, o pensamento prático!

Luís Lemos

Filósofo, professor universitário e palestrante. Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2011), O homem religioso – A jornada do ser humano em busca de Deus (2016); Jesus e Ajuricaba na Terra das Amazonas: Histórias do Universo Amazônico (2019). E-mail: [email protected]


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