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Se, em plena pandemia, os salões de beleza, as barbearias e as academias de ginástica representam atividades essenciais, tenho ser lícito supor que seus frequentadores ficam imunes ao contágio do vírus. Em sendo verdadeira essa suposição, sinto-me o mais desprotegido dos seres do planeta. Um esteticista, por mais competente e dedicado que seja e mesmo se valendo do instrumental mais sofisticado de sua arte, não lograria me transformar num Adonis. Os salões, portanto, não podem contar com minha insignificante presença para me proporcionar os meios ao seu dispor para minha proteção sanitária. Cabelos, restam-me alguns pelas laterais do crânio e são objeto do trabalho do Francisco Cearense, quando lhe peço (e gentilmente sou atendido) que compareça ao meu escritório. Isso não impede que a Heleninha cante “eu vi uma barata na careca do vovô/Assim que ela me viu, bateu asas e voou”. Já se vê, pois, que também nas barbearias é que não vou encontrar o escudo protetivo contra a covid-19. Sobram as academias. Para mim, nem isso. Nunca tive vocação para atleta e, talvez por isso, nunca me tenha sido dado sonhar com a presidência da República. Quando muito, nos fins de semana pratico algumas sessões de halterocopismo, eis que tenho de cumprir meu compromisso com o governo da Escócia, consumindo seu produto mais famoso.

Vamos falar sério, minha gente. Esse Bolsonaro está abusando do direito de ser leviano. Onde é que já se viu maquiagem e malhação serem essenciais num momento de crise tão grave? É um debochado e provocador. Se não lhe inspiram respeito os milhares de mortos, poderiam despertar-lhe pelo menos o pudor, uma consideração minimamente civilizada com o sofrimento alheio. Mas, não. Ele continua se comportando como se não soubesse que está à frente de uma Nação, cujos mais de duzentos milhões de habitantes hão de pretender que seu líder os trate com a deferência que fizeram por merecer.

De onde tirou ele essa implicância com as recomendações médicas para o isolamento? Muito bem. Se se considera imune à doença, é monomania dele. Que a cultive em silêncio ou, quando muito, a compartilhe em diálogo com seus aparelhos de ginástica. Mas não parece tolerável que, diante do espetáculo devastador a que todos assistimos, ele se disponha a brincadeiras ridículas e a provocações rasteiras.

 Outra coisa não foi, além disso, aquele anúncio do churrasco. Se pretendia realizá-lo, estaria apenas dando sequência a enfieira de irresponsabilidades por que se tem distinguido durante a crise. Se nunca teve a intenção de efetivar a patuscada, a atitude revela um caráter pueril, brincadeira de grupo escolar e de mau gosto, a ser contida com a aplicação do castigo correspondente: isolamento, de frente para a parede. Não lembro a palmatória. Já não é politicamente correto.

Em lugar do churrasco, o jet-ski presidencial deslizou sobre as águas do lago Paranoá. Sol e vento do planalto central acariciavam a pele daquela figura ridícula, exibindo todo o seu potencial atlético para um povo ferido de morte. Como é possível tolerar tanta incoerência, tanto menosprezo? Não creio existir uma fórmula científica para tanto. Diz o povo que “calma e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. Acho que é verdade. O que não sei é se a aplicação dessa receita será eficaz para sopitar o sentimento de revolta que insiste em se manifestar todas as vezes em que Bolsonaro tripudia sobre os sentimentos mais elementares da humanidade.

Carregado de ódio, transpirando complexos por todos os poros, Jair Messias vai levando à frente uma política que só ele entende, exatamente por não ter qualquer vinculação com o interesse público. Para o clã importa apenas o dar-se bem, assim como se as instituições republicanas tivessem sido moldadas para a satisfação de personalíssimos interesses. Fechem-se o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal: estão sendo obstáculos à perfeita consecução dos planos presidenciais. Bolsonaro tudo quer e, portanto, tudo tem que poder.

Sei que o assunto da semana foi o tal vídeo da reunião que marcou o divórcio de Bolsonaro e Moro. Diz-se que foi de uma baixaria sem precedentes. Isso não me causa estranheza: não espere refinamento de quem elogia torturador. E, no final das contas, é somente um episódio a mais da pantomima em que salão de beleza é convocado para combater uma pandemia. Que Bolsonaro faça maquiagem, corte o cabelo e pratique ginástica. Pode ser que em alguma dessas atividades ele se dê bem. Mas nenhuma delas vai ensiná-lo a ser presidente.


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