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“A pandemia do coronavírus quebrou meu dente.” Mas como um vírus que se espalha pelo ar e pode levar complicações respiratórios se relaciona a problemas odontológicos?

De acordo com especialistas ouvidos pela Folha de S. Paulo, houve um aumento evidente nos casos de dentes quebrados durante a quarentena, embora não exista um levantamento consolidado.

As ocorrências atendidas nos primeiros meses do isolamento, quando as clínicas serviam apenas a urgências, foram desse tipo, e a tendência segue desde então.

A principal hipótese é a de que o estresse e as diferentes emoções que vêm a tona neste momento de crise social, econômica e psicológica provoquem problemas bucais.

Giuseppe Romito, professor titular de periodontia na Faculdade de Odontologia da USP, explica que uma das formas de questões psicológicas se manifestarem em nosso corpo é com o apertamento dos dentes.

“Se o dente está fraco, a sobrecarga o quebra. Se o dente estiver forte, ele pode não quebrar, nem desgastar, mas vai mudar de posição, começar a ter movimentação dentária. O terceiro [caso mais comum], quando o dente é forte e a raiz aguenta [a movimentação], vai estourar na articulação”, explica.

Sob condições normais, a musculatura da mandíbula é ativada apenas para falar e se alimentar, permanecendo em repouso nos outros momentos, com os dentes desencostados.

Da mesma forma que o estresse pode causar gastrite ou dores nas costas, ele também pode fazer com que, inconscientemente, apertemos os dentes durante o dia e a noite —ou provocar o ranger de dentes durante o sono, conhecido como bruxismo.

“Em momentos como este, a pessoa nem se dá conta que está realizando esse estresse no dente e acaba levando à fratura, pelo limite de resistência mecânica”, explica a doutora em materiais dentários pela USP e especialista em próteses e disfunções têmporo-mandibulares Ana Romito

Em geral, o dente quebrado é o primeiro efeito dessa tensão muscular. Se o osso resistir ao estresse, explicam os especialistas, sua raiz pode ficar sobrecarregada, e o dente ficar mole ou se movimentar.

Outro reflexo podem ser as dores musculares, tanto na mandíbula quanto em partes do corpo relacionadas. Também é comum pacientes manifestarem mais de um desses sintomas.

“Os nossos medos, inseguranças, vulnerabilidades, fantasias de iminentes perdas, aparecem em formas e sintomas que chamamos de conteúdos manifestos, que são dores de estômago, pesadelos, bruxismo, fantasias de ter sido infectado, irritabilidade pelo confinamento”, explica a psicóloga Mônica Fortunato Friaça.

Ela mesma conta que teve de tratar de um dente mole durante a pandemia, com um quadro de apertamento e ranger dos dentes.

“Às vezes você tem dor de ouvido cuja causa o otorrino não descobre, e é o apertamento, que leva a uma tensão muscular em cadeia. Pode ser tanto ascendente, causando dores de cabeça, quanto descendente, levando a dores na nuca, ombro e coluna”, explica Ana Claudia.

Os tratamentos podem e devem ir além da questão odontológica, explica a dentista, que tem psicólogos e fisioterapeutas parceiros para indicar aos pacientes.

Ela compara cadeira do dentista a um divã, tantos são os casos em que a raiz do problema de um paciente é psicológica.

Como na maior parte das pessoas o tensionar dos músculos é inconsciente, o tratamento mais abrangente utiliza técnicas de recondicionamento dos hábitos e conscientização, para que o paciente se dê conta da força que está aplicando e possa relaxar.

“De modo geral, qualquer coisa que minimize o estresse [ajuda], porque o fator emocional é determinante. Exercícios aeróbios, por exemplo. Para quem tem muita contratura, dores articulares, a gente não aconselha a realização de exercícios de força, porque se você levantar um peso e tiver esse hábito, você pode apertar os dentes”, explica Ana Claudia.


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