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O governo Bolsonaro parece ter chegado ao fundo do poço: conseguiu ser criticado por Donald Trump. Mesmo o alinhamento pela ideologia fascista, que marca os dois governantes, não impediu que o comandante do Império fizesse comentários desairosos sobre a maneira como seu admirador dos trópicos conduz a questão da pandemia. Vê-se que a grosseria e a má educação de ambos não impediram a manifestação da divergência, tão mais curiosa quanto se sabe que lá pelas bandas de cima as coisas também não andam às mil maravilhas. Não se cometa a precipitação de avançar a opinião de que esse fracasso se deve exclusivamente às convicções direitistas. Seria no mínimo temerário, na medida em que, pelo mundo afora, governos de direita conseguiram vitórias significativas na guerra contra o vírus. Acho que a coisa vai mais além: é burrice mesmo, deficiência avassaladora que não reconhece preferências políticas. Há burros lá como cá e os burros do mundo inteiro têm uma acendrada noção de solidariedade, de tal sorte que podem causar abalos tsunâmicos.

Veio-me, então, à lembrança o ministro eclético, o doutor Paulo Guedes. Não que eu esteja a insinuar que Sua Excelência integra o elenco dos orelhudos. Longe disso. Afinal de contas ele mesmo faz questão de proclamar que lê Keynes no original, o que, se não configurar vitupério, parece ser prova de indiscutível erudição. A associação de ideias com o doutor Guedes, portanto, tem mais a ver com a minha própria burrice, esta que eventualmente chamo de ignorância e que é inconteste. Por isso não consigo entender quando o ministro diz que o novo imposto, que ele encasquetou de criar, não vai aumentar a carga tributária. Então para que criar? É que fico matutando aqui no meu bestunto: imposto é, por definição, uma forma de o governo arrecadar dinheiro. Se se pensa em instituir mais um tributo, parece razoável deduzir que o governo está precisando de mais dinheiro. Fora disso, seria mero exercício sádico para brincar com e abusar da paciência do contribuinte, o que, convenhamos, não tem lugar sério numa política fiscal e tributária.

Dizem os entendidos que o tal novo imposto é a reencarnação do ectoplasma da malsinada Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, aquela mesma CPMF com que os governos anteriores atenazaram o povo durante anos. A diferença, parece, reside em que o imposto do doutor Guedes segue a linha de influência da cibernética e se destinaria a onerar as transações feitas eletronicamente. Não sei. Já reconheci que sou ignorante, sendo para mim inacessíveis as razões de ser dessas discussões transcendentais. O único que posso concluir é o seguinte: se o imposto não vai aumentar o caixa do governo é desnecessário e inútil; se vai, carece do mínimo de legitimidade política, na medida em que a quantidade e o volume dos impostos que já pagamos são capazes de desafiar a habilidade do “Homem que Calculava”, de Malba Tahan.

Enquanto essa tragicomédia é encenada nos palcos da economia, nos arraiais do Ministério Justiça a fúria fascista urde dossiês contra servidores públicos, ao fito de lhes controlar as atividades voltadas para a defesa do estado democrático e de direito. É a intolerância política no seu mais alto grau de ebulição. Dá para sentir o bafio execrando do estado policialesco, infenso à divergência de opiniões. Característica primacial do autoritarismo, essa intolerância faz vista grossa para a evidência de que foi necessária uma luta tenaz e paciente, por mais de duas décadas, precisamente para apear do poder os que rasgaram a Constituição, depuseram o presidente da República e implantaram a ditadura militar.

Pandemia, política tributária, liberdade de expressão, nada disso tem qualquer importância para esse capitão de barranco que, num momento de rara infelicidade, o povo brasileiro colocou no Palácio do Planalto. Dos tempos em que era possível ir assistir a jogos nos estádios de futebol, lembro-me de que a torcida, quando insatisfeita com a atuação de um atleta perna de pau, gritava para ele, usando um verbo bem mais chulo: “Pede para defecar e sai”. É só isso que peço ao Bolsonaro. Se atendido, seria um grandioso presente no Dia dos Pais.


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