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Do professor José Seráfico de Carvalho recebo artigo intitulado “Por que votamos em Hitler”, de autoria do jovem professor Oliver Stuenkel, que se trata de um teuto-brasileiro, doutor em Ciência Política pela Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, tendo atuado como professor visitante na Universidade de São Paulo, estado em que reside. No parágrafo inicial ele pondera: “Ao longo da década de 1920, Adolf Hitler era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia e a Liga das Nações, precursora das Nações Unidas. Em 1932, porém, 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler, a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933, ele tornou-se chefe de governo. Por que tantos alemães instruídos votaram em um patético bufão que levou o país ao abismo?”

O texto tem datação de outubro de 2018 e reflete, guardadas as devidas proporções quanto ao nível cultural, o que, naquele mês, aconteceu em nossas eleições presidenciais. Cansado da política atabalhoada do PT, o povo brasileiro foi buscar o seu próprio bufão no quarto de despejo do Congresso Nacional e o transferiu para o Palácio do Planalto. As evidências da ideologia fascista já se mostraram escancaradas durante o primeiro ano de governo, com os ataques a tudo o que possa representar, por mínimo que seja, um pensamento progressista.

Agora mesmo, por exemplo, fiquei sabendo, pelas palavras do onisciente Ministro da Economia, que os pobres são os responsáveis pelo desmatamento da Amazônia. Vem nitidamente aos meus olhos a imagem do exército de ribeirinhos e indígenas, maltrapilhos e com fome, alinhando suas máquinas pesadas e de alto custo, para levar a cabo a devastação da floresta. E, enquanto as grandes empreiteiras do agronegócio deixam seus donos a dormir o sono dos anjos, essa pobreza inconsequente vai em frente na sua atividade deletéria. Acho mesmo é que o ministro nunca viu a floresta e sabe de Amazônia tanto quanto eu sei de física nuclear.

Num quadro dessa ordem, até agora não me deram explicação plausível para o doutor Roberto Alvim ter sido demitido da Secretaria Especial de Cultura. Afinal de contas, o que fez ele? Copiou, num pronunciamento, um discurso de Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. Acho que entendi: o Alvim se esqueceu de usar aspas e foi demitido por plágio, mas não por sua mensagem contrariar em alguma coisa os objetivos do governo a que servia. Plagiar é pecado mortal; ser fascista nem pecado é.

Vamos ver como vai se sair a dona Regina Duarte. Nunca me foi dado conhecer o pensamento político dessa atriz, a cujo talento artístico acho que se poderia aplicar a anedota referente ao ator americano Victor Mature. Dizem que ele afirmava: eu não sou ator de jeito nenhum; é só ver os filmes que fiz para comprovar isso. Deixemo-lo, todavia, gozar a paz dos mortos. Fixemo-nos na nossa nova personagem, saída das câmeras diretamente para o cenário político, onde parece aguardá-la missão atroz.

Com efeito, trabalhar com educação nesse governo parece ser tão difícil quanto nadar contra correnteza. O Ministro da área, o doutor Abraham Weintraub, dá mostras de nunca ter conseguido estabelecer relações minimante cordiais com a língua portuguesa. Não fora assim, e ele não teria chegado a grafar “paralização”. Acontece que Sua Excelência revela uma excepcional implicância com a letra “esse”, tanto que novamente a jogou para escanteio, ao escrever “imprecionante”. Impressionado fico eu com tanta parlapatice.

Por falar em letras, não sei se já notaram que Bolsonaro cultiva uma especial adoração pela inicial de seu nome. Digo isso baseado no apoio que lhe é dado no Congresso Nacional. Seus projetos são intransigentemente defendidos pela bancada da bala, bancada do boi e bancada da bíblia. Se me fosse dado o poder de imiscuição em matéria de tão alta relevância, acrescentaria eu a bancada da burrice, que de outra fonte não pode advir o projeto que busca ferir de morte um dos princípios mais sagrados da deontologia jurídica, qual seja o sigilo da relação advogado/cliente.

Mas devo voltar ao texto do professor Stuenkel, por cujo leitura agradeço penhoradamente ao professor Seráfico. Eis suas considerações finais: “Uma análise mais objetiva mostra que justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da Alemanha em 1932. Diferentemente do que se ouve hoje em dia, Hitler não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade alemã. Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo. Antes de muitos perceberam o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia ser mais contido. Era tarde demais”.

Aprendamos com o exemplo. O Estado Democrático pede socorro.


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