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Foram muitas as dificuldades que o estudante João Victor Ventura Cavalcante encontrou ao longo dos seus 20 anos. Nenhuma delas, talvez, tenha marcado tanto o jovem quanto as suas visitas a hospitais quando criança. Surdo, filho de mãe ouvinte, ele sofria para se comunicar com os médicos, o que muitas vezes dificultava um diagnóstico 100% acurado. Agora, o aluno da Escola Estadual Desembargador André Vidal de Araújo, uma das unidades inclusivas da Secretaria de Estado de Educação (Seduc-AM), prepara-se para participar do programa Parlamento Jovem Brasileiro (PJB), em Brasília.

Na capital do país, João Victor terá a oportunidade de evitar que outros jovens e seus pais encontrem os mesmos obstáculos que ele enfrentou quando menino. Único representante do Amazonas no programa, o estudante defenderá, diante de outros jovens parlamentares, um projeto de lei que propõe não somente a implementação de intérpretes e tradutores em hospitais e prontos-socorros, como também torna obrigatório que médicos, enfermeiros e demais profissionais desses estabelecimentos façam curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras).

João Victor embarcará para Brasília no domingo (22/09), acompanhado do seu professor e tradutor, Claudio Saraiva. O PJB acontece entre os dias 23 e 27 de setembro. “Esse projeto de lei tem como foco a acessibilidade, mostrando a necessidade que a comunidade surda tem. Precisamos de médicos que dominem a língua dos sinais com fluência. Muitas vezes não somos compreendidos [por esses profissionais] e acabamos recebendo inclusive diagnósticos errados, o que pode resultar em morte”, explicou.

O aluno conta que ficou sabendo a respeito do programa por meio do amigo Rodrigo Corrêa, também surdo, que participou do PJB no ano passado, ficando entre os dois finalistas.

“Sempre acreditei que meu projeto seria aceito. Orei muito para Deus para que isso acontecesse e estou muito feliz e emocionado. Espero que esse passo ajude a projetar ainda mais a comunidade surda para o Brasil, incentivando que seus integrantes participem de iniciativas como o PJB. Existe um grande sofrimento em estar numa sociedade e, na maioria das vezes, não ser compreendido”, afirmou João Victor.

Ele reforça, ainda, que está bastante confiante que o seu projeto será bem recepcionado: “Caso ele [o projeto de lei] passe, tenho certeza que ajudará, e muito, a comunidade surda do país, além de motivar seus membros a lutarem ainda mais por acessibilidade, principalmente na saúde. Seria uma felicidade tremenda que nossos hospitais estivessem preparados para nos atender”.

Inclusão – O caminho foi longo até que João Victor se sentisse parte de uma escola. Quando mais novo, ele chegou a estudar numa unidade de ensino particular, mas nunca se adaptou. “Era uma escola muito rígida, que ‘exigia’ que nós, surdos, falássemos. Foi um momento de muito sofrimento”, acrescentou o estudante do 3º ano do Ensino Médio.

A integração veio anos depois, com a transferência para a Escola Estadual (EE) Desembargador André Vidal de Araújo, na zona norte de Manaus. “Esta é a primeira escola inclusiva com alunos ouvintes em que estudei na vida, foi um momento de muita felicidade! Não demorei a me adaptar, é uma excelente unidade de ensino. Com pouco tempo, as pessoas já estavam me abordando para que eu as ensinasse a se comunicar em Libras”, revelou João Victor.

A EE Desembargador André Vidal de Araújo faz parte do grupo de 315 escolas inclusivas da rede estadual – sendo 189 no interior e 126 na capital. Somente em Manaus, essas unidades contam com 56 professores-intérpretes e atendem mais de 2.200 estudantes com necessidades especiais. Os números do interior do Amazonas ainda estão sendo levantados pela Seduc-AM.

De acordo com o gestor da EE Desembargador André Vidal de Araújo, Maurício Lira Teixeira, o sentimento de inclusão por parte dos corpos docente e discente da unidade foi algo que brotou naturalmente.

“Temos um quadro excelente de professores-intérpretes e, com o tempo, percebemos que os demais funcionários e estudantes da escola passaram a se interessar por Libras. Criamos um curso para ensinar a língua dos sinais a quem interessasse, e a demanda foi gigante: porteiro, professores, merendeiras e até mesmo pessoas de fora da unidade nos procuraram. Esse projeto se expandiu de forma grandiosa e, desde que foi criado, já formamos várias turmas”, destacou Maurício.

O gestor acredita que o sucesso do curso não só ajudou no combate ao preconceito, como também promoveu uma maior interação entre as comunidades ouvinte e surda.

“Estamos muito felizes com o que alcançamos até agora, e a ida do João Victor a Brasília nos enche de orgulho. Esse feito está dando um novo patamar ético à esfera docente da escola, e nossos professores estão determinando e direcionando essa contribuição. Ao mesmo tempo, os alunos seguem aceitando os desafios e ‘contaminando’ a comunidade no geral”, concluiu o gestor.

Parlamento Jovem Brasileiro – O Parlamento Jovem Brasileiro (PJB) é uma oportunidade única para os estudantes de Ensino Médio do Brasil vivenciarem, na prática, por uma semana, o trabalho dos deputados federais, elaborando projetos de leis e debatendo na Câmara dos Deputados temas de grande importância para o país.

O programa busca, ainda, contribuir para o desenvolvimento de uma das dimensões de nossa cidadania, que é o conhecimento sobre organização da democracia representativa, assim como a importância da participação e do controle social.


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