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O caso que a seguir conto ocorreu no ano de 2011. Tem toques de surrealismo, mesclados com irresponsabilidade e negligência. E eu lhes asseguro que não inseri, no relato, nenhuma pitada de ficção. Por isso, devo advertir que qualquer semelhança com pessoas e fatos reais não é mera coincidência. Eis o que se passou e que a história sirva de advertência aos menos avisados:

“O doutor Francisco Rezende Cavalcante é um dos obstetras mais respeitados nas maternidades desta Cidade Sorriso. E meu amigo. Por isso, lamentei profundamente quando ele foi acometido de complicações cardíacas que o obrigaram a se submeter a uma cirurgia de peito aberto. Teve êxito o procedimento e os médicos conseguiram consertar veias e artérias, fazendo o “ingrato coração” voltar a funcionar com a normalidade esperada.

Mas a ferida relutou em fechar. Litros e quilos de antibióticos foram utilizados e o ferimento persistia, zombando, como se dizia antigamente “de todos os recursos da medicina”. Os médicos resolveram, então, realizar exames específicos para determinar o tipo exato de bactéria (acho que é isso) que impedia a cicatrização. Colheram o material e lá se foi o nosso bom obstetra em direção ao laboratório CPDE – Centro de Pesquisa e Diagnóstico Especializado, ali no Millenium, na esperança de uma solução rápida que lhe abreviasse a angústia.

No dia 30 de agosto, voltou para receber o resultado. Na parte atinente à “bacteriscopia” (pelo menos é assim que está escrito), o laboratório detectou a presença das seguintes coisas, seja lá o que for que elas signifiquem: “Esfregaço constituído por numerosas células epiteliais descamativas. Raras leveduras isoladas”. Profissional, Rezende não se espantou com esse palavreado esotérico. Mas deu um pulo quando percebeu que o laboratório esclarecia com todas as letras que esse resultado fora obtido a partir do exame de “secreção vaginal”.

Foi um deus-nos-acuda. Meu amigo foi consultar seus colegas mais experientes para saber se tinha faltado à aula, na Faculdade, em que alguém tivesse esclarecido se o contato diuturno e profissional com o órgão genital feminino seria capaz de, por algum processo maquiavélico, criar um igualzinho no peito do obstetra. Foram todos unânimes em asseverar que, tirando a ferida, o peito do doutor Rezende se encontrava exatamente do jeito como fora feito, não se detectando, nem de longe, a presença de uma vagina no tórax do paciente.

Esclarecido e superado esse ponto da mais alta relevância científica, empreendeu a volta ao tal laboratório. O problema foi resolvido com uma singeleza capaz de fazer inveja à história do ovo de Colombo. Simplesmente foi mantido o mesmo resultado, alterando-se apenas o ponto referente ao material examinado que, no novo “laudo”, deixou de ser “secreção vaginal” para assumir a feição de “secreção de ferida crônica”. Nada demais. Passe bem e muito obrigado.

E não era o SUS. Tudo pago, contabilizado e embolsado. Em palpos de aranha, mesmo, ficaram os médicos incumbidos do tratamento da ferida, até porque, era o assombro generalizado, nunca tinham ouvido falar de nenhum tratamento que objetivasse o fechamento de vagina.

Bem por tudo isso, outro amigo, sabendo da história, jurou que nunca vai fazer exame de fezes nesse laboratório. E pondera, a meu ver com carradas de razão: “Imagine se o laudo vem dizendo que o material examinado foi secreção cerebral! Sentir-me-ia terrivelmente ofendido”. Eu, hein!”

Foi este o “causo” ocorrido há quase uma década. De lá a esta data não tive notícia de algo semelhante, o que não significa, de nenhuma forma, a impossibilidade de ter acontecido. Vem-me à lembrança que atualmente, quando uma doença não é logo diagnosticada recebe o rótulo genérico de “virose”. Sendo tão vago, não pode ter tratamento específico. Assim, o paciente fica liberado para escolher entre as pílulas de vida do doutor Ross e o chá de quebra-pedra. Pelo menos não tem que fazer exame laboratorial.


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