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Assim o Carlos Irani nos transmitiu a notícia pelo zap: “Infelizmente, meu pai, depois de lutar por vinte e um dias, partiu tranquilo, às 18:30 horas de hoje. Ficamos todos com a lembrança da alegria e da vontade de viver que ele tinha”. Foi na quarta-feira, 24, e seu pai era o doutor Mário Bezerra de Araújo.

Fomos amigos por mais de quarenta anos. Como receber impunemente uma notícia dessas? Impossível. Chorei e me pus a lamentar comigo mesmo que a pandemia tenha voltado suas garras para complicar um câncer pré-existente e nos roubar um homem honesto, sensato e culto como foi o Mário.

Economista de formação, não sei de nenhum profissional da sua área que dominasse com tanta firmeza o conhecimento sobre o setor primário de produção no Amazonas. Era um apaixonado pelo assunto e, quando sobre ele dissertava, chegava à empolgação contagiante, numa linguagem que nada tinha de professoral. Longe disso. Era a explanação lógica, com o encadeamento perfeito de fatos e teorias, para desaguar na conclusão, sempre enfatizada, de que os rumos adotados no setor precisavam, e ainda precisam, de urgente e drástico redirecionamento.

Mário tinha uma ligação muito forte com o Nordeste. É que por lá fez seus estudos intermediários e, por lá, na remota Santa Quitéria, foi encontrar aquela que seria a companheira de toda a sua vida. A comadre Olga, como, carinhosamente, a chamamos todos os da Sede. Dá para imaginar a devastação que sobre ela se abateu com a perda do marido-amigo, companheiro de décadas de solidariedade e amor. Carlos Irani, filho único do casal, há de encontrar forças para consolar a dor daquela que também sempre se revelou mãe exemplar.

Na Sede, aos sábados, como de praxe, Mário tomava cerveja ou degustava a brasileiríssima cachaça, enquanto eu cumpria meu compromisso com o governo da Escócia. E nossas conversas se prolongavam, ao som do violão, enquanto dávamos a volta ao mundo e ao tempo, tratando do Império Romano ao imperialismo americano. Ele não era aferrado ao pensamento marxista, qual eu; mas estava longe, anos-luz, de ser um reacionário. Lúcido, seu posicionamento revelava a estrutura de um humanista, apto a compreender as injustiças sociais, contra elas se revoltar e para elas buscar soluções.

Revelou todas essas facetas na incursão última que fez nos domínios da poesia. Eu não poderia esquecer que ele foi, também, poeta. Em janeiro do ano passado, publicou sua coletânea de poemas, em livro que intitulou “Entre a Neblina e a Bruma”. Assim me dedicou carinhosamente um exemplar: “Ao amigo irmão Felix Valois, um dos luminares da advocacia criminal e emérito expoente da língua portuguesa”. Já dá para ver que a bondade excessiva integrava o elenco das virtudes de Mário.

Pois muito que bem. É lá que encontro a pista clara e evidente do humanismo do poeta. Em “Poema de uma vida de sonhos”, ele revela: “Sonhei muito e loucamente/Continuo sonhando aos borbotões/Com coisas, querendo sempre realizá-las/Com pessoas, querendo sempre imitá-las/Ou desejando ardentemente/Que seus pensamentos se realizassem/Os mais remotos sonhos/Se me apresentaram muito cedo/Quando,entre outros,/Rousseau, Engels, Marx, Louis Blanc, Robert Owin/Adentraram minha mente/Com ideias igualitárias/Aonde cada homem/Tinha o direito de viver sem ser explorado”. E a conclusão: “Finalmente sonho com todos eles/Reunidos no panteão da glória/A lamentarem quanto esforço/Foi despendido em vão”.

Nem tanto, saudoso amigo. Você se foi, é verdade, num momento muito ruim para o país que você tanto amou. A intolerância nos acossa e o ódio vocifera diariamente. Como você mesmo ponderou em outro poema, intitulado “Cegueira”: “O homem vive e morre/Os animais vivem e os matam/Os insetos vivem e os matam/As aves vivem e as matam/Os peixes vivem e os matam//Somente o homem morre e não é morto//Será?/E a fome?…Incompetência/E as doenças?…incúria/E as guerras?…vingança/E a violência?/Não veem?”

Suas netas hão de ver aquele Brasil com que você sempre sonhou e para o qual deu o melhor de seus esforços e de sua sabedoria. Mas agora, quando sua ausência, por definitiva e recente, nos esmaga os corações, só posso lhe dizer, querido Mário Bezerra, que você mesmo, ao escrever “Lamentosos Prantos”, traduziu o que vai no mais íntimo de todos os seus amigos: “Impossível prender o choro/Quando a dor machuca muito/Embora tenhamos em conta/Que as lágrimas vertidas/Não curam as feridas da alma”.

Não fui me despedir de você. A velhice e o vírus não permitiram. Com isso, sofri ainda mais. Adeus, Mário Bezerra, e muito obrigado por ter sido meu amigo.


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