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De Olavo Bilac: “Um horror grande e mudo, um silêncio profundo/No dia do pecado amortalhava o mundo”. O poeta cantava “A Alvorada do Amor”. Não lhe teria sido possível imaginar que, pouco mais de um século após sua morte, ocorrida em 1918, a imagem por ele criada teria inteiro cabimento. Não mais vinculada a amor e pecado, mas apenas para retratar um universo devastado pelo medo, assolado por um inimigo invisível, cuja ferocidade letal não encontra paralelo na história.

Estamos horrorizados e amortalhados, essa é a verdade. As máscaras que usamos não conseguem escondê-lo. Nem poderiam, porque o medo não está na face. Antes, ele se manifesta na angústia da incerteza, na distância que separa amigos, no vazio do diálogo que só pode ser travado à socapa, assim como se todos fôssemos obrigados a adotar o sussurro como substituto da palavra.

Os filhos estão longe dos pais. Vê-los e ouvi-los apenas pelos meios eletrônicos tende a aumentar a sensação de vazio. Pode haver coisa mais cruel do que um pai ser impedido de beijar seus filhos? Talvez haja. Mas não precisa buscá-la. A que assim se apresenta é mais que suficiente para alquebrar ânimos, suprimir coragem e deletar as esperanças de felicidade.

É o mesmo com os amigos. Ficam apenas as lembranças das reuniões sem agenda e sem objetivo, em que as conversas eram literalmente jogadas fora. Era um prazer que não se descreve. Quem tem amigos bem sabe o que é isso. E sabe também que o distanciamento não pode ter o condão de esgarçar os laços. Ou não seria amizade. Mas o que não é possível é evitar que a saudade se manifeste aos borbotões.

É assim com tudo, afinal de contas. Não queria nem falar dos netos. É que, então, a coisa adquire contornos de uma brutalidade inquisitorial e o vazio dessa ausência não pode ser preenchido nem com a mais abundante torrente de lágrimas. Não pode. Quando muito o pranto sufoca por instantes o pensamento, afastando ilusoriamente uma realidade que insiste em se mostrar cruel e inclemente.

Há os que não podem homenagear seus mortos. A última estatística informa que já são mais de vinte mil. O inimigo ceifa vidas e ainda impõe medidas antissépticas que, no contexto, se despem do requisito da necessidade para vestir a capa da mais dura insensibilidade. A dor que não se pode extravasar é, por definição, muito mais intensa. E, nesse caso, bem mais porque é a dor diante do irremediável.

E o que nos espera? Com a maior humildade do mundo, peço, por favor, que se alguém a tiver, me dê a resposta a essa pergunta. Ela não me abandona. Persegue-me até durante o ano, eis que o pesadelo do caos então se apresenta. Voltaremos normalmente ao trabalho? Poderemos ir ao estádio ver um jogo de futebol? Será possível reunir amigos em torno da mesa para o consumo da cerveja ou do uísque? Vai acontecer de novo receber um beijo da netinha e ouvir “boa noite, vovô”?

Pensar que nada disso pode acontecer novamente é arrasador. Teríamos nós que viver em redomas, cada um no seu universo particular, cuidadosamente separados para “evitar o contágio”. É impensável. A ficção científica mais eletrizante não seria capaz de imaginar um mundo em tais condições.

Nosso país, nesse cenário de horror, consegue a ridícula façanha de aterrorizar ainda mais o resto do mundo. Aqui, nos círculos oficiais, a coisa é tratada com o mais supremo menosprezo. O Ministério da Saúde virou quartel. Bolsonaro quer porque quer a cloroquina. Demônios! Deem-lhe a cloroquina. Deem-lhe a fórmula para estabelecer a quadratura do círculo. Deem-lhe o quinto dos infernos. Deem-lhe o que possa satisfazer suas megalomanias. Mas lhe deem também uma dose, ínfima que seja, de bom senso. Não é possível que esse homem não esteja vendo o terror que a cada dia mais e mais se espraia pelo Brasil. Não é possível que esse quadro terrível não seja capaz de despertar nele o mínimo de (como diria?) piedade, pelo menos.

Nosso povo não merecia tamanha estupidez. Espero que, pelo menos, se e quando a mortalha for retirada, possamos manifestar a esperança que Bilac pôs na voz de Adão, dirigindo-se a Eva, depois do pecado: “Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!/Rosas te brotarão da boca, se cantares!/Rios te correrão dos olhos, se chorares!


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