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O governo sueco adotou uma política suave na contenção do coronavírus. Sem quarentena radical, por enquanto, o resultado é inconclusivo. A Suécia escapou do desastre visto na Itália, mas teve muito mais mortos do que os vizinhos da Escandinávia. Se ainda é cedo para determinar os benefícios sanitários, já é possível pelo menos apontar um desfecho econômico. Mesmo sem bloqueio total, a economia naufragou, como no restante da Europa.

Na semana passada, o Banco Central da Suécia projetou que o PIB do país deve contrair entre 7% e 10% neste ano, uma estimativa comparável aos outros países da União Europeia que adotaram medidas radicais de isolamento – a Comissão Europeia projeta que a economia do bloco sofrerá uma contração de 7,5%.

A resposta moderada da Suécia ao surto de coronavírus atraiu elogios de alguns políticos americanos, que veem o país como um possível modelo para os EUA. “Precisamos observar com a mente aberta o que aconteceu na Suécia, onde as crianças continuaram estudando”, disse o senador republicano Rand Paul, aliado do presidente Donald Trump.

Mas, embora a Suécia tenha evitado os números devastadores de Itália, Espanha e Reino Unido, também houve um aumento extraordinário de mortes nas últimas semanas. Em Estocolmo, onde o vírus se espalhou em comunidades de imigrantes, mais que o dobro do número habitual de pessoas morreu no mês passado. 

O crescimento ultrapassa em muito o aumento de mortes em cidades americanas, como Boston e Chicago, e se aproxima dos índices observados em Paris. Em toda a Suécia, quase 30% a mais de pessoas morreram durante a epidemia do que o normal nesta época do ano, o mesmo patamar atingido pelos EUA e muito superior ao de países vizinhos – que têm sistemas de saúde bem estruturados e baixa desigualdade social.

“A comparação com os EUA não é muito lisonjeira para a Suécia, que possui um sistema de saúde pública bom”, disse Andrew Noymer, demógrafo da Universidade da Califórnia. “Não há razão para a Suécia estar pior do que Noruega, Dinamarca e Finlândia.”

Especialistas dizem que não há dois países exatamente iguais, o que torna as comparações inexatas. Fatores como sorte, demografia e ações pessoais desempenham um papel importante. As autoridades suecas optaram por não implementar uma quarentena, confiando que as pessoas fariam sua parte e praticariam o isolamento. 

Escolas, restaurantes, academias e bares permaneciam abertos, com regras de distanciamento social aplicadas, enquanto reuniões eram restritas a 50 pessoas. Dois meses depois, o resultado não foi o desastre que muitos imaginavam. As mortes por covid-19 atingiram desproporcionalmente os idosos, como na maioria dos países europeus, mas os hospitais não foram sobrecarregados. 

“Está claro que a mortalidade em Estocolmo foi muito maior do que o normal”, disse Martin Kolk, demógrafo da Universidade de Estocolmo. “Mas teremos de esperar para saber o que aconteceu. Será uma diferença grande se continuarmos a ter um excesso de mortalidade por mais seis meses ou se voltarmos aos níveis normais em algumas semanas.”

O governo sueco vem defendendo sua estratégia, embora reconhecendo que o país não conseguiu proteger os idosos. O objetivo das autoridades era limitar a propagação da infecção sem ter de paralisar a economia. “Depois de entrar em uma quarentena, é difícil sair dela”, afirma Anders Tegnell, epidemiologista responsável pela estratégia da Suécia. “Como e quando é possível reabrir?”, questiona.

Em vez de impor restrições, autoridades sanitárias da Suécia fizeram recomendações que os suecos seguiram na mesma intensidade que em outros países da Europa. Segundo dados de mobilidade do Google, os suecos foram a restaurantes, lojas e outros locais de recreação com a mesma frequência que os vizinhos – daí o resultado econômico tão parecido.

Mas há razões para acreditar que a abordagem da Suécia pode não funcionar em outros lugares. A baixa densidade demográfica e o alto número de pessoas morando sozinhas – fatores típicos da Escandinávia – tornam o país diferente da Europa Ocidental. Na Itália, por exemplo, o vírus afetou várias gerações que viviam sob o mesmo teto, se espalhando facilmente dos jovens para os parentes mais velhos.

Por fim, embora a Suécia não seja um país jovem em comparação com o restante da Europa Ocidental, tem uma alta expectativa de vida e baixos níveis de doenças crônicas, como diabetes e obesidade, que tornam o vírus mais letal. Se os demógrafos dizem que ainda é cedo para tirar conclusões, o alto número de mortos é um aviso. “A Suécia será julgada na linha de chegada”, disse Noymer. “Mas é um risco alto e as consequências são as vidas humanas.” (Estadão)


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