Da esquerda para a direita: Eduardo, Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro (Crédito: Divulgação)
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Entre um uísque e outro, Vinicius de Moraes, que era poeta, filosofava: “Filhos? Melhor não tê-los. Mas se não temos, como sabê-lo?”. Não sei se ele levou consigo essa dúvida tão atroz. Da minha parte, tal cogitação é inconcebível. Não consigo me imaginar sem os meus quatro rebentos e a respeito deles já escrevi o seguinte: “Luís Carlos, Lucíola, Alfredo e Lúcia me deram o que jamais imaginei fosse possível: a capacidade de amar sem exigências de retorno, amando pelo prazer de amar em si mesmo. Com eles, não consegui construir o mundo com que sempre sonhei. Mas valeu a pena lutar por isso, até porque com eles travei o bom combate, tendo ao lado sua lealdade e o seu afeto. Quem tem filhos como os meus pode até não seguir o meu exemplo. Paciência. Faço-o sozinho: meus filhos, seu velho pai não lhes soube dar riqueza; ela sempre esteve acima da minha capacidade. Mas, fiquem certos: é impossível medir a gratidão que lhes devoto pela sua existência, assim como é imensurável a minha vergonha por tudo aquilo em que lhes falhei.” Hoje eu não modificaria uma vírgula disso que falei há mais de dois anos, por ocasião do dia dos pais. Muito ao contrário, deploro a falta de talento para mais e bem dizer dessas quatro criaturas.

Mas, se assim me sinto, fico pensando, até por uma questão de solidariedade humana, em como o presidente Bolsonaro encara a questão da paternidade, à vista do comportamento dos três príncipes que o acolitam no exercício do poder. Os pimpolhos parece que vivem um eterno dia das bruxas, assediando as pessoas com o dilema “gostosura ou travessura” e tudo indica serem daqueles curumins enjoados, cuja vontade, se não satisfeita, gera surtos de indignação.

Tomemos a imaginação de um deles. Em uma rede social postou um vídeo em que seu papai figura como o rei da selva. Sua Majestade, ciente de seu dever de velar pelo bem-estar de todos os animais, tenta se sair bem dessa missão, mas é constantemente atrapalhado pelas hienas sanguinárias. Entre os predadores estão o Supremo Tribunal Federal e os partidos políticos que fazem oposição ao soberano. Que imaginação! A metamorfose kafkiana da corte suprema num hienídeo é grotesca. Um poder judiciário independente é pressuposto do funcionamento de qualquer regime democrático. É bem certo que, com cinquenta e quatro anos de militância na advocacia, já não alimento a crença juvenil na pureza e na sapiência absolutas dos tribunais de qualquer nível. Para esse desalento bastaria, se tantos outros fatores não existissem, a leitura do voto do ministro Barroso na questão da prisão antecipada. Um aplicado estudante de Introdução à Ciência do Direito não assinaria aquele amontoado de tolices. E, se o fizesse, haveria de receber a mais pomposa reprovação porque os argumentos do ministro seriam ingênuos se não fossem perigosos para a segurança jurídica. Daí, entretanto, a considerar o tribunal maior como inimigo da República vai uma distância abissal e o príncipe bem que poderia ter ido brincar de casinha e se poupar da besteira que fez.

Um outro príncipe, esse bem inserido no contexto da bruxaria, houve por bem de apresentar solução brilhante para a eventualidade do agravamento de uma crise política. Sua Alteza, arrastando o nobre manto pelos corredores palacianos, admoestou a gregos e troianos no sentido de que, se não se comportarem direitinho, poderão ter que enfrentar os horrores e as agruras de um AI-5 reeditado. Nenhum ser humano, estando com as faculdades mentais intactas e perfeitas, pode imaginar coisa tão macabra e estúpida. Eis o que alhures eu disse: “De fato, em 1968 a ditadura nos brinda com a edição do AI-5, documento que conseguia enfeixar em pouco espaço tudo o que havia de ruim, retrógrado e malévolo no pensamento político. Ficamos sem parlamento e os tribunais eram um arremedo de cortes de justiça, feridos que foram no seu âmago a partir da clara interferência no seu próprio órgão supremo. Eram a violência e o terror na sua expressão mais requintada.” O paizão renegou a brincadeira do filhote. Acho, porém, que não lhe assiste o direito de castigá-lo porque, afinal de contas, a sabedoria popular já proclama que “quem sai aos seus não furta, herda”. O pai jamais escondeu seu amor pela ditadura da mesma forma como não negaceou aplausos à tortura como forma de obter confissões, sendo mais que conhecidos os elogios publicamente feitos ao sinistro coronel Ulstra.

Não sei, não, mas tenho para mim que a humanidade estaria mais bem servida se o pai do rei e avô dos príncipes tivesse dado uma lida no Vinicius e optado pela primeira solução. “Melhor não tê-los”.


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