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Médicos da Nigéria entraram em greve, exigindo máscaras faciais e salários, um reflexo do risco crescente. Enfermeiros na Guiné-Bissau tiveram de fechar uma ala depois que todos os que trabalhavam ali ficaram doentes.

Funcionários de hospitais de Camarões estão trabalhando com febre – evitando até fazer os testes – porque não podem perder o salário dos turnos.

A pandemia do coronavírus está castigando grande parte da África, onde os casos constatados mais do que triplicaram em relação ao mês passado, pondo em risco as equipes médicas extremamente desgastadas com o aumento da necessidade de assistência.

Desde os primeiros dias da pandemia, os líderes de todo o continente vêm insistindo na urgência da prevenção, e adotaram medidas agressivas – fecharam as fronteiras, monitoraram os contatos e construíram alas adicionais para o isolamento – afirmando que muitos lugares carecem de recursos para fazer frente a surtos descontrolados.

Agora, as autoridades de saúde africanas e os profissionais da medicina estão preocupados com as rachaduras em uma armadura crucial: as infecções entre profissionais da saúde dos hospitais dispararam nada menos que 203% desde o final de maio, segundo a agência africana da Organização Mundial da Saúde, depois do aumento da transmissão comunitária e da brusca redução dos equipamentos de proteção.

As tendências alarmaram os epidemiologistas dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças da África, que em um relatório de junho alertaram que a maioria dos países enfrenta “uma escassez catastrófica” de profissionais de medicina.

Se o novo coronavírus contaminou um número devastadoramente elevado de trabalhadores da saúde no mundo inteiro, as nações africanas, em média, contam com um número muito menor destes profissionais para serem enviados às linhas de frente. A região subsaariana tem 0,2 médicos para cada mil pessoas, segundo dados do Banco Mundial – muito abaixo da média mundial de 1,6. (A América do Norte tem 2,6, e a União Europeia 3,7.)

“Não podemos ficar olhando nossos colegas se contaminarem”, afirmou Ndukwe Emmanuel Ifeanyi, membro do comitê nacional da Associação Nigeriana de Médicos residentes, que representa 40% dos médicos do país. “Não dispomos da mão de obra suficiente”.

As restrições das viagens e das exportações cortaram um fluxo fundamental de suprimentos médicos, afirmaram trabalhadores da saúde, obrigando médicos e enfermeiros a se exporem ainda mais.

“Vamos perder cada vez mais um recurso extremamente finito”, disse Noreen Hynes, diretora do Centro Geográfico de Medicina da Divisão de Doenças Infecciosas da Universidade Johns Hopkins.

Tedros Adhanm Gebreyesus, o diretor geral da OMS, originário da Etiópia, enfatizou em março que um surto de grandes proporções poderia atingir rapidamente os hospitais, que já carecem de funcionários em todo o continente.

A África registra uma fração desproporcionalmente pequena dos casos de todo o mundo, embora os testes continuem limitado em algumas áreas. Mas com o aumento dos contágios, as autoridades de saúde afirmam que o pessoal médico luta com crescentes dificuldades para  enfrentar situações cada vez mais graves – particularmente na África Ocidental. Os recursos muitas vezes são escassos.

A Libéria está racionando máscaras e luvas remanescentes da epidemia de Ebola de 2014 a 2016. O país teve mais de 650 casos de coronavírus na terça-feira – pelo menos 45 dos quais eram trabalhadores da saúde.

“Estamos maximizando os recursos mínimos de que dispomos”, disse Sai Wata Camanor, médica diretora do Centro Médico John F. Kennedy da capital Monróvia. Ela aconselha os funcionários a fazerem pausas regulares, a evitar riscos desnecessários e a ficar em casa se sentirem esgotados.

“Um profissional de saúde contaminado é um perigo”, afirmou. “Ele expõe seus colegas e expõe seus pacientes”.

O vírus, ela costuma explicar aos seus funcionários, poderá permanecer por muito tempo, como a malária. Estes trabalhadores precisam se manter saudáveis e motivados. 

Eghosa Owie, clínico geral de 26 anos em Lagos, Nigéria – a cidade mais populosa da África – está de olho na saída do país.

“Quase não há médicos formados, que eu conheça, que não considerem a possibilidade de deixar o país”, ele disse, falando do seu quarto de quarentena em um hotel que foi adaptado. “É outra epidemia na Nigéria”.

Owie pegou uma forma fraca de coronavírus há duas semanas. Mas as condições do seu lugar de trabalho o preocupam mais do que a garganta dolorida: A sua máscara N95 teve de durar duas semanas, quando, em geral, deve durar com segurança um único turno.

Como ele poderia ajudar as pessoas se não pôde proteger a si mesmo? A moral está muito baixa, afirmou. No início do mês, alguns médicos fizeram greve revoltados por terem de comprar suas próprias máscaras, entre outras queixas.

O número de profissionais da saúde da Nigéria que testaram positivo (987) no dia 23 de junho, mais que dobrou em relação a 19 de maio, mostram dados da OMS. Alguns acabaram tendo de usar ventiladores. Dez morreram.

Owie, que cresceu falando a língua naijá (Pidgin), passou o tempo no isolamento estudando para fazer um exame de inglês porque pretende trabalhar no Reino Unido.

“Todos os meus colegas de faculdade já fizeram o teste e foram aprovados”, afirmou. “Pelo que estou vendo – acho que não vou querer ficar aqui e trabalhar nestas condições”.

Uns quartos depois desta espécie de centro de quarentena, outro médico lia um exemplar digital do livro The 7 Habits of Highly Effective People. Odumade Afolabi, de 32 anos, pensou em deixar o emprego em um hospital particular para evitar este problema.

Também médico, trabalhava oito horas por dia tratando dos doentes na pandemia, mas ainda precisava vender perfume para pagar as contas. O salário de US$ 500 mensais não era suficiente.

Portanto, quando uma organização sem fins lucrativos  de prevenção da HIV lhe ofereceu três vezes mais, ele concordou  em começar no novo emprego  depois do último turno. Foi quando começou a tossir.

“Eu queria um trabalho mais seguro. Um trabalho de escritório”, afirmou na sua cama no isolamento. “O risco de um médico é surreal. O salário não mostra isto”.

Na Guiné-Bissau, um surto que atingiu profissionais de saúde no mês passado fez com que a UTI do hospital fechasse por uma semana para uma desinfecção profunda.

Praticamente todos os médicos e enfermeiros entraram em quarentena, disse Monica Negrete, diretora da missão de Médicos Sem Fronteira do país.

”Se alguém quebrasse uma perna ou tivesse um ataque cardíaco”, prosseguiu, “não teríamos onde tratar esta pessoa”.

O episódio pareceu um aviso, disse Monica. Os casos continuam aumentando persistentemente, e menos de 2 mil trabalhadores são treinados para tratar dos pacientes em uma nação de quase 2 milhões de habitantes. Os que tratam dos casos graves são menos ainda.

Na região central de Camarões, 293 trabalhadores da área de saúde testaram positivo para o coronavírus, mas os especialistas afirmam que o número real provavelmente é muito maior.

“Não temos testes suficientes para toda a equipe”, afirmou Charlot Essiane, um médico sindicalista da capital, Yaoundé.

Alguns deles percebem os sintomas e optam por fazer quarentena por conta própria. Uma jovem enfermeira parou depois que uma tomografia detectou lesões nos seus pulmões.

Os pacientes precisam esperar cada vez mais tempo para ser atendidos. “Os pacientes que chegam às 7 horas da manhã só conseguem um médico às 10”, disse Essiane. “Às vezes, só meio-dia”.

Tracy, uma enfermeira da cidade que não quis ser identificada, disse que os funcionários do hospital trabalham mesmo doentes – o medo é perder um dia de salário.

Alguns inclusive evitam os testes, afirmou. Ela fez exame no final de maio depois que teve febre, por insistência do noivo. O resultado foi positivo. Ela foi obrigada a esperar quatro dias para receber uma medicação contra a dor. “Eles disseram que o hospital não tinha mais”, disse Tracy. “Tive de me virar sozinha”.

Ela procurou alguns dos seus amigos – um médico que acabava de se formar. Ele ficou doente antes que Tracy começasse a quarentena.

“O diretor me disse: ‘O cara se foi’ ,” ela contou. Ela ainda não sabe ao certo se isto significa que ele saiu ou se morreu”.

Borso Tall em Dakar, Senegal, e Oris Aigbokhaevbolo em Lagos, Nigéria, contribuíram para esta reportagem. (Estadão)


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