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Semana passada a Polícia Militar de São Paulo executou nove pessoas. As vítimas estavam participando de um baile funk, numa região ironicamente chamada Paraisópolis. É certo que mesmo o respeito devido aos que partem não pode levar ao elogio de suas preferências musicais, mas é incontroverso também que esse pecadilho não se alça à condição de exigir a pena capital para os que o praticam. Por que, então, a polícia levou a cabo o massacre? Fiquei imaginando se já não seria um efeito da excludente de ilicitude, desenhada e sonhada pelo ministro Moro. Os colegas mais jovens, porém, sempre muito atualizados, deixaram-me ciente de que essa inovação jurídico-penal ainda não encontrou um canal minimamente lógico para se materializar. Apelei; e, com todo o meu ateísmo, não me foi possível afastar o pensamento: será que os policiais estavam com o cão no couro? Essa mística suposição não parecia totalmente inviável, na medida em que, tendo eu uma solene implicância com dupla sertaneja, axé e funk, não poderia deixar de considerar o último como capaz de fazer o capiroto se apossar dos agentes lei, induzindo-os ao estrago.

Vejam no que dá a intromissão em alheia seara. Estava em completo equívoco, eis que fiquei sabendo que o gênero musical preferido do coisa ruim, para facilitar suas tramas e artimanhas, é o rock, o mesmo rock que, desde os anos cinquenta do último século, nos brindou com as maravilhas dos Beatles e dos Pink Floyd. E quem me tirou da ignorância, trazendo-me esta luz de sabedoria? Ninguém menos que o maestro Dante Mantovani, recém empossado como presidente da Fundação Nacional de Arte (FUNARTE). O jornal O Globo informa que se trata de um jovem de trinta e cinco anos que, além de graduado em música, “é especialista em Filosofia Política e Jurídica e Mestre em Linguística”, tendo defendido “o doutorado em Estudos de Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina”.

Sabendo que a Funarte é “responsável por definir as políticas públicas de fomento às artes visuais, à música, ao teatro, à dança e ao circo”, é possível vislumbrar um futuro brilhante para o nosso país, no campo de que se cuida, sob a batuta do novo maestro. Ativista, ele não se faz de rogado para expressar suas opiniões que, temos de reconhecer, são no mínimo originais. Segundo aquele jornal, o eclético maestro publica vídeos em seu canal no You Tube, “onde ele tira dúvidas sobre música clássica e compartilha teorias da conspiração”.

Vamos ver o que ele pensa sobre o rock. É incisivo: o ritmo “ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto”. Entendeu, plebe rude? Nada mais simples, tão cristalina é a ideia transmitida e lógica a sequência dos fatos: para dançar, tocar, ouvir ou curtir o rock, você usa a droga; em estando doidão, fica tesudo e vai, com a sua companheira também doidona, fazer imoralidade (sem camisinha, é claro); meses depois, lá vai a moça à procura da hoje extinta clínica do doutor Dorval ou da Leila da Matinha. Pronto, assim se escreve a missão do tão decantado rock and roll.

Mas se você pensa que acabou por aí está redondamente enganado. Enfático, com a cabeleira esvoaçante como compete a todo bom maestro (nem sei se o Mantovani tem cabelo), o nosso herói leva seus adeptos ao delírio quando formula a peroração impecável e que foi a responsável pela correção do equívoco em que incorri: “A indústria do aborto, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo”. À guisa de exemplo, acrescenta: “O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”. Viram? Não é o funk, é o rock, ele mesmo, que faz as pessoas irem repousar nos braços do satanás, participando com ele de orgias sabáticas, onde as mulheres passeiam em vassouras e os homens exibem patas e barbicha de bode. Tudo ao som de “Hey, Jude”.

O nosso Dante (que o Alighieri não se sinta ofendido) é, como vimos, eclético, dominando também a Filosofia Política. Por isso, voltou ao tempo da guerra fria para fazer esta revelação estarrecedora: “A União Soviética mandou agentes infiltrados para os Estados Unidos para experimentos com certos discos realizados para crianças. Esses agentes se infiltravam e iam mudando, inserindo certos elementos para fazer engenharia social com crianças. Daí passaram para música para adolescentes”. Sabem qual foi um dos resultados dessa manobra de espionagem musical? Digo-lhes, sem medo de errar, porque estou amparado pela sapiência do Mantovani: “o surgimento de Elvis Presley na década de 1950”. Dentro do mesmo padrão, o sábio em música, filosofia e linguística descobriu que “agentes soviéticos se infiltraram na CIA e distribuíram LSD em Woodstock para destruir a família, “base” do capitalismo”.

Diante de tantos e tão eruditos ensinamentos, fiquei ainda mais convencido das dimensões amazônicas em que passeio minha ignorância. De música evidentemente não sei nada, nem mesmo os fundamentos do canto orfeônico que a paciência da professora Lila Borges de Sá me quis transmitir no Instituto de Educação. Mas acho que dá para distinguir uma sonata de um axé. Isso, porém, não tem nenhuma importância. Parece-me que o relevante, diante do que se descortina à frente das artes com o seu novo “conductor”, é uma simples pergunta: não há mais hospícios no Brasil?


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