Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Parece ser sintoma de indiscutível loucura alguém ficar feliz por ter sido infectado pelo corona vírus. Os incômodos por ele provocados, além do óbvio risco de morte, estão a indicar que é bem melhor permanecer longe dessa praga que já infelicitou milhares e milhares de brasileiros. Mas a sabedoria popular tem alguma dose de razão quando proclama: “não há mal que sempre dure; não há bem nunca se acabe”. Vejam só o meu exemplo.

Desde o dia 16 de março permaneci em casa, efetivamente em quarentena, seguindo a orientação científica que então nos era passada. A partir desse dia, os contatos diretos com outras pessoas ficaram rigorosamente proibidos, significando dizer que eu até podia ver minhas netinhas, mas beijá-las e abraça-las, nem pensar. Era um tormento. Lembro-me de que, no fim de uma tarde domingo, publiquei um texto em que vociferava contra a melancolia da hora, agravada por um silencio absoluto. Era a falta delas e do seu barulho característico, aquele que, acho eu, soa bom e gostoso apenas nos ouvidos dos avós.

Foi passando o tempo até que, às vésperas de completar cinco meses de isolamento, eis senão quando o vírus se apresentou, driblou os sentinelas e se estabeleceu em mim e na minha mulher. Era até irônica tamanha contradição: trancados em casa, o que já é angustiante, e ainda por cima com a maldita doença. Ponha maldita nisso. O monstro é aterrador mesmo para aqueles que o menosprezaram, chamando-o de gripezinha, incapaz de afetar atletas e similares.

Mas o que tenho de certo é que sobrevivemos. Foi chato, foi dolorido e angustiante, mas passou. E aí é que entra meu ponto: por que posso me considerar feliz por ter sido infectado? Será uma espécie de trauma pós covid, ou apenas um sintoma de loucura? Nada disso. Vou-me explicar e sejam benevolentes na análise da explicação, porque ela não é científica. Resume-se exclusivamente ao lado emocional.

Pois muito que bem. Vamos lá: tendo sido infectado e não tendo morrido, como foi o meu caso, a consequência é a imunização contra o cretino do vírus. Isso, na minha condição específica, significou o fim do isolamento e, por via de consequência, a possibilidade de abraçar e beijar de novo aquelas crianças bruscamente de mim afastadas.

Foi um pandemônio. A primeira vez que elas entraram em casa, depois do ocorrido, é cena que não tenho talento para descrever. Até porque o choro tomou conta de mim, enquanto as punha no colo e recebia os abraços e os beijos tão estupidamente de mim sonegados.

Voltei a ouvir o barulho de que senti falta. Voltei a mergulhar numa onda de felicidade que a moléstia me fazia considerar inteiramente perdida. Essas três criaturinhas (Helena, Ayla e Catarina) exercitaram toda a sua magia, tirando-me de um estado letárgico e me devolvendo a possibilidade de viver. Ousaria mesmo dizer que foi perfeito, não fora por um pequeno detalhe, do qual só eu sou culpado: tive que interromper o uso do cigarro, em decorrência do corona, e isso está me custando muito caro, não só em termos materiais, mas também, e principalmente, no campo emocional, exigindo tratamento específico, com a supervisão de profissionais.

Mas isso vai passar também. Depois de sobreviver à praga do século, hei de ter condições de me desapegar do vício e, então, encerrar o ciclo de recuperação. Quando nada porque depois de mais de cento e cinquenta dias isolado, acho que me assiste o direito de voltar ao convívio dos amigos e de desfrutar da companhia de filhos e netos.

Estou chegando lá. O vírus, pelo menos ao que me consta, já não pode me afetar nem pode mais me fazer sentir como um transmissor em potencial. Se os médicos estiverem certos (e acho que estão), posso agora esperar com tranquilidade a chegada da vacina, tenha ela a origem que tiver.

Por tudo isso não me sinto louco. As netinhas são a prova concreta de que, se continuo tendo capacidade de amar, não posso ser um insano. Muito pelo contrário.


Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •