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Se vivêssemos numa gerontocracia, é até possível que eu fosse um dos velhos integrantes do núcleo de poder. Claro que procuraria não ser chato com os jovens; haveria de lhes respeitar a ânsia pelo novo e até pediria deles assessoria para entender todas essas complicações cibernéticas que, avassaladoras, não respeitam nem gerontocratas nem anciãos pobres.

Já numa plutocracia, este velhinho aqui estaria definitivamente alijado de qualquer perspectiva de mando. Nem poderia ser ao contrário porque parece que a riqueza encontra em mim algum repelente de elevado poder tóxico, de sorte que de mim nunca se aproximou nem permitiu que eu com ela sequer flertasse. Não cheguei ao Bolsa Família, é certo, mas sigo aqui contando os trocados para manter em dia as contas.

Esse radical, que, em grego, se grafa “kratia”, forma muitas palavras no vernáculo, todas vinculadas ao exercício do poder. “Democracia” seria o governo do povo, conquanto não tenha eu ciência de que algum ditador tenha deixado de proclamar seu mais absoluto respeito aos desejos e às aspirações de sua gente. É que, como a “autocracia” traduz poder absoluto, o autocrata pode se rotular do que bem entender sem que se lhe possa opor qualquer resistência. Que o digam Auschwitz e os porões do DOI-CODI. Ou, ainda no mesmo plano, o Departamento de Imprensa e Propaganda, do Estado Novo getuliano.

Sobram, ainda, a “aristocracia” e a “tecnocracia”, aquela com a sua grande porção de nobres emplumados e esta com a supremacia de técnicos inacessíveis. Todas, como se vê, definem uma forma de organização sociopolítica e tende ao infinito o debate sobre vantagens e defeitos de cada uma. Mas estão perfeitamente dimensionadas, o que, por portas e travessas, me levou ao exercício de tentar enquadrar o sistema brasileiro, sob Bolsonaro, em alguma das categorias, ou, quando nada, num coquetel de algumas, de tal sorte que me fosse possível entender e explicar o que está acontecendo na Pátria amada e idolatrada.

Foi árdua a tarefa e, o que é pior, inconclusiva. Vejamos: porque o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais informou sobre o aumento de desmatamento na Amazônia, o presidente colocou sob suspeita um órgão que detém reconhecimento internacional por sua competência e capacidade. Não é normal isso. Não pode ser. Remete à anedota do mundo jurídico, muito bem lembrada por Nelson Hungria, em que o marido enganado, para evitar a repetição da ofensa, mandou jogar no lixo o sofá em que flagrou o casal adúltero.

Segundo ele, o presidente, o INPE está a serviço de ONGs que só buscam denegrir a imagem do Brasil. Que coisa! Esse ufanismo tolo não confere a ninguém o direito de tentar obscurecer, com mera retórica, os males por que passamos, principalmente no que se relaciona à preservação desta região continental.

Mas isso é sintomático. O preconceito explodiu, descarada e absurdamente, com a referência aos “governadores paraíbas”, a revelar que, afora as regiões conhecidas como sudeste e sul, o resto do Brasil não passa mesmo de resto. Como é que pode isso, minha gente? Somos, então, brasileiros de segunda categoria, destinados apenas a preencher os formulários do IBGE para completar o censo? E para demonstrar, através desse mesmo censo, que, com a nossa natureza de caboclosou de sertanejos, estamos destinados ao atraso, à imobilidade e ao subdesenvolvimento?

Recuso-me a aceitar tranquilamente o decisório presidencial. Pouco se me dá que ele se considere mais patriota que qualquer outro brasileiro. Não o é. Aliás, fosse verdadeiramente patriota, não permitiria esse vergar da coluna e a genuflexão diante do império do norte, onde outro megalômano pretende ditar os rumos da humanidade.

Talvez bem por isso, está na ordem do dia a notícia de que um dos herdeiros vai ser indicado para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Aí há coerência absoluta, na medida em que é da sabença popular que “os iguais se procuram”. Refiro apenas que Fernando Gabeira, em primoroso artigo publicado em O Globo desta segunda, lembrou que o cavalo Incitatus foi nomeado senador por Calígula. Acrescento que, segundo a história, o imperador tinha sérias pretensões de promover a cônsul o seu quadrúpede de estimação. Qualquer semelhança terá sido mera coincidência. E fica resolvida minha dúvida: vivemos numa “filhocracia”, que, aliada à “burrocracia”, não parece ser o melhor sistema.


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