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JusBrasil – Vale a pena conhecer e refletir sobre o que diz o respeitado neurocientista Carl Hart da Universidade de Columbia nos Estados Unidos a respeito do uso de drogas e das políticas sobre o tema ao redor do mundo. Ele é pesquisador do assunto há mais de vinte anos. Há pouco o neurocientista se surpreendeu com os resultados de suas pesquisas e inverteu sua visão: pensava, como a maioria leiga no tema, que era o abuso de drogas que desencadeava os problemas sociais e descobriu que ocorre exatamente o contrário, os problemas sociais é que agravam a questão do uso de drogas.

Hart afirma que o problema não é a droga em si e sim toda a circunstância que cerca o usuário. Ele aduz que há pessoas que fazem uso recreativo de qualquer droga, desde as consideradas mais leves como a maconha até as mais pesadas como crack e heroína e não se tornam viciadas ou não têm suas atividades e sua psique afetadas. Cita exemplo dos três últimos presidentes estadunidenses que admitiram o uso de maconha bem como do prefeito de Toronto Rob Ford, que confessou o uso de crack, mas, no entanto, administra uma das melhores cidades do mundo. Também o ex-prefeito da capital dos Estados Unidos Marion Barry, usuário contumaz declarado, reeleito pela população de Washington depois de ser preso por envolvimento com drogas, inclusive com crack. Todos os citados cumpriram e cumprem seus papéis sociais a despeito do uso de substâncias consideradas nocivas. Vale lembrar que o álcool talvez seja a mais deletéria de todas e, no entanto, é permitido, tolerado e muito consumido.

Por outro lado, aqueles que se viciam, seriam os que não teriam outras formas de suprir seu tempo e suas necessidades, encontrando nas drogas uma companhia ou um suporte para suas dificuldades, na maioria das vezes criadas à sua revelia. Aliás, os números chamam atenção e contrariam muito o que se pensa vulgarmente. De acordo com Hart, apenas vinte por cento dos usuários de crack são dependentes, número muito próximo do álcool, na casa dos quinze por cento. Nesta ótica, pode-se usar qualquer droga assim como se usa o álcool, o que destrói um dos grandes mitos em torno do assunto e revela a enorme hipocrisia acerca dele.

A melhoria das condições sociais, aliada a uma política de redução de danos e do uso consciente se mostra, conforme o pesquisador, imperiosa. Ele compara com os automóveis. Até meados da última metade do século passado os acidentes de trânsito eram muito mais fatais. Implantaram-se novos mecanismos de segurança, melhores vias, uso obrigatório de cinto, educação para o trânsito, direção defensiva entre outros que reduziram drasticamente a mortalidade. Com as drogas os resultados seriam semelhantes.

Tudo isso mostra que passa da hora de se ter uma visão aberta, inteligente e, sobretudo, científica acerca de um assunto tão importante, deixando de lado dogmas e (pré) conceitos carentes de experiência e racionalidade científica. Alguns países estão rompendo com essa obsolescência e limitação de pensamento e implantando medidas experimentais que têm se apresentado positivas, como é o caso do Uruguai e de alguns estados dos Estados Unidos (Colorado e Washington).

Droga não é questão de polícia, mas de saúde pública e isso já se sabe há muito tempo. O Brasil, por sua vez, se mantém emperrado, adepto de políticas ineficientes e ultrapassadas além de argumentações truculentas e preconceituosas, refém ainda de um governo subserviente a interesses de oligarquias e de religiões irredutíveis, já que se mostram e querem se mostrar cegas diante da realidade que se vislumbra contrária às “convicções” que inventaram pra eles, além, é claro da insidiosa criminalização da pobreza que fortalece esse “discurso”. Não se trata aqui de fazer qualquer apologia e sim de tratar com racionalidade uma questão tão relevante e tão carente nesse aspecto.

Publicado por Bernardo Pena.


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