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Folha de S.Paulo – Enquanto a Grécia luta para lidar com um fluxo aparentemente interminável de imigrantes vindos da vizinha Turquia, o governo conservador tem um novo e polêmico plano para responder ao problema: uma barreira flutuante para deter os barcos de contrabandistas.

Mas grupos de defesa dos direitos humanos condenaram o plano, alertando que o resultado seria um perigo ainda maior enfrentado por aqueles que buscam asilo em meio a crescentes tensões nos campos das ilhas do Mar Egeu e nas comunidades de lá e do continente.

A potencial eficácia do sistema de barreiras também foi amplamente questionada, e o diário de centro-direita Kathimerini fez pouco da ideia em um editorial de janeiro, descrevendo a solução como “irreal e ingênua”. O principal partido de oposição, Syriza, de esquerda, condenou a barreira flutuante, descrita como “um insulto, uma desgraça da humanidade”.

As autoridades pensam em instalar uma barreira de quase três quilômetros entre os litorais grego e turco que se ergueria mais de 48 centímetros acima do nível da água, com luzes piscantes, de acordo com descrição publicada em um site do governo pelo ministério da defesa da Grécia, que deve supervisionar o projeto.

A barreira flutuante teria custo estimado em 500 mil euros, ou mais de US$ 554 mil, incluindo o custo de quatro anos de manutenção. O governo deve designar a construção da obra em breve, mas ainda não está claro quando a barreira seria erguida. O ministro da defesa da Grécia, Nikolaos Panagiotopoulos, disse à rádio grega esperar que a barreira flutuante funcione como fator de afastar contrabandistas, como a cerca de arame farpado que as autoridades gregas instalaram ao norte, na fronteira terrestre com a Turquia, em 2012.

“Em Evros, barreiras físicas tiveram impacto e limitaram o fluxo”, disse ele. “Acreditamos que resultado parecido pode ser alcançado com essas barreiras flutuantes.” O diretor de pesquisas da Anistia Internacional para a Europa, Massimo Moratti, condenou a proposta, que descreveu como “escalada alarmante dos contínuos esforços do governo grego no sentido de dificultar ao máximo a chegada de refugiados e solicitantes de asilos às suas praias”.

Moratti alertou que a proposta pode “levar a um perigo ainda maior para aqueles que procuram desesperadamente a segurança”. O diretor da Anistia Internacional na Grécia, Gavriil Sakellaridis, questionou se o governo grego responderia a um pedido de ajuda de emergência feito por uma embarcação detida na barreira.

A Comissão Europeia manifestou suas ressalvas. Adalbert Jahnz, porta-voz da comissão, disse em Bruxelas recentemente que uma eventual barreira oceânica grega para afastar imigrantes não pode impedir o acesso de solicitantes de asilo. De acordo com o ministro da imigração da Grécia, Notis Mitarakis, 72 mil imigrantes entraram na Grécia no ano passado, sendo que em 2018 esse número foi de 42 mil.

Ameaças feitas pelo presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, no sentido de “abrir os portões” da Europa para refugiados sírios atualmente no território do seu país levaram a temores de um colapso do acordo estabelecido entre Turquia e União Europeia em 2016, que teve como resultado uma diminuição na chegada de novos imigrantes.

Desde o seu início em meados do ano passado, o governo grego do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis se vê sob pressão cada vez maior para cumprir a promessa de uma postura mais rigorosa em relação à imigração do que a de seu antecessor, Alexis Tsipras, do Syriza. Planos revelados em novembro prevendo a criação de campos nas ilhas do Mar Egeu enfureceram os moradores, que participaram de protestos de massa em janeiro, com cartazes trazendo mensagens como “Queremos nossas ilhas de volta”.

Grupos de defesa dos direitos humanos alertaram para as péssimas condições de vida dos campos de cinco ilhas que abrigam 44 mil pessoas, quase 10 vezes sua capacidade. A situação é particularmente tensa no vasto campo de Moria, em Lesbos, onde foram registrados 30 esfaqueamentos em janeiro, dois deles fatais.


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