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Há que encontrar mecanismos para enfrentar o isolamento e a tristeza que estão indissoluvelmente ligados à quarentena. Ela é cruel, mas é uma realidade inafastável, se não quisermos seguir a trilha dos minimalistas. Para estes, não corremos risco maior do que a infecção por uma gripezinha, a ser enfrentada com ácido acetilsalicílico ou com paracetamol. Claro que seria ótimo se fosse verdade. Acontece que não é, e, salvo para os que preferem o comportamento de avestruz, impõe-se, como dizia eu, ir buscando algo que consiga proporcionar o mínimo de prazer nos longos períodos de solidão. Minha filha Lucíola, otimista irrecuperável, chega até a admitir, para os que não tenham ouvidos muito sensíveis, escutar um “sertanejo universitário”. Não vou a tanto. No caso de que se trata, tenho pela inteira procedência do dito forjado na sabedoria popular, segundo o qual “antes só do que mal acompanhado”.

Para os chegados às coisas da religião há uma escapatória bem singela, uma vez que é corrente, entre eles, a certeza de que “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Estaria, assim, estabelecido um equilíbrio entre o padecimento e o alívio. Se me fosse dado o direito de imiscuição em assunto tão transcendente, confesso que preferiria inverter os termos da propositura, pleiteando que o agasalho é que fosse proporcionado de acordo com a temperatura. Seria bem mais simples do que ir tentando adaptar o termômetro à qualidade e/ou ao potencial dos cobertores individuais. Mas, como – diz-se – “a fé remove montanhas”, o melhor que faço, no assunto, é ficar quieto e me recolher à minha insignificância.

Já os de pouca (ou nenhuma) fé, como é o caso deste modesto escriba, têm mesmo que cascavilhar na trivialidade das coisas terrenas, à cata dos mecanismos menos dolorosos para o enfrentamento da tragédia. Uma boa música, um livro clássico são ingredientes que, com certeza, podem compor um excelente coquetel. Claro que a relatividade também aqui se faz presente. Seria impossível englobar no adjetivo “boa” toda a quase infinita diversidade do universo musical, da mesma forma como o “clássico” atinente aos livros haveria de sofrer variações segundo as óticas individuais. Nada, porém, que não possa ser contornado pela aplicação do simples bom senso e pela observância dos parâmetros gerais da civilização. É só partir dos extremos (na música, axé e Mozart; na literatura, livros de autoajuda e Machado), para, através de acurada ponderação, encontrar o limite do que é razoável.

Aqui no meu cafofo, encontrei uma forma singular e particular de, pelo menos temporariamente, me divertir. Explico: os poucos que me leem sabem que nestas mal traçadas linhas tenho cuidado, nas últimas semanas, do comportamento, digamos, excêntrico do presidente da República, reprochando-lhe a desfaçatez e a irresponsabilidade com que trata a pandemia. Sabem também que os textos são publicados aos sábados no Diário do Amazonas e que os coloco igualmente no facebook. Pois muito que bem: não sei por que cargas d’água alguns bolsonaristas fanáticos me honram com sua leitura; e é em alguns dos seus comentários que tenho encontrado a fonte da alegria transitória no isolamento. Alguns são antológicos.

De forma geral, tendem a estabelecer uma comparação entre algumas maluquices dos governos petistas e as maluquices do capitão. É impressionante. Parece que as tolices bolsonaristas são feitas como birra às lembranças das do PT e com o sentimento de que umas podem compensar as outras. Besteirada. Tolice não é para ser lembrada nem repetida. Está mais a exigir esquecimento e superação. Houve um “comentarista”, por exemplo, que me disse algo mais ou menos assim: “quando Lula chamou a crise financeira de marola, você não disse nada”. Nem me lembro se disse. Devo tê-lo feito porque meus textos da época estão repletos de acerbas críticas ao comportamento de Lula e Dilma. Mas essa não é a questão. O importante é que, para o bolsomino, o fato de o ex-presidente ter dito aquela heresia, o atual pode cometer outra, menosprezando o poder e a intensidade da pandemia, chamando-a de gripezinha. Não é de morrer de rir? Dei gostosas gargalhadas.

Outros recorrem ao anticomunismo puro e simples, como foi o caso daquele que me recomendou ir morar em Cuba, ao argumento de que, sendo eu a favor do isolamento e já estando aquela ilha isolada desde 1959, encontraria lá o ambiente ideal. Impossível não rir a bandeiras despregadas, como se costuma dizer. Em Havana já estive duas vezes, antes e depois da extinção da União Soviética. Vi a luta heroica daquele povo para construir uma sociedade mais justa, apesar da opressão do gigante. Mas é de sabença popular que, por mais que eu admire a casa do vizinho, não tenho o direito de me mudar para ela. Quando muito posso buscar fazer com que a minha a ela se assemelhe.

Peço encarecidamente que não me deixem sem material de diversão. Preciso afastar a tristeza.


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