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Na quinta-feira, dia 12, Helena Beatriz completou sete anos. Está mais linda que nunca e, mais do que sempre, tomando consciência da autoridade que exerce sobre este ancião, seu orgulhoso e corujíssimo avô. Fui rever minhas notas e encontrei várias referências à figurinha. Por exemplo, esta a seguir. Foi escrita no final de 2012, quando se alardeava que, segundo o calendário maia, o fim do mundo era iminente: “Finalmente, o lamento dos lamentos: não poderei desfrutar do nascimento da minha sexta neta, cujo advento está programado para março. Aí também já é demais. Uma ova que o mundo vai acabar. Ruim com ele, pior sem ele, e em março estarei carregando a Heleninha no colo, pronto para continuar desempenhando o papel de todos os avós que se prezam: fazer a vontade dos netos, aceitando-lhes incondicionalmente a atuação ditatorial. O resto é conversa pra boi dormir.”

Mais tarde, ela volta ao cenário, em crônica que intitulei “Feira da Helena”. Escrevi assim: “No próximo 12 de março, Helena Beatriz vai atingir a provecta idade de… dois anos. Bebê e neta, exerce implacável ditadura sobre este velho que lhes escreve. Ouvir dela algo que soa como “vovô, vem cá” tem o mesmo tom de uma sonata mozartiana para violino e piano. No último fim de semana ela se superou no exercício de sua autoridade inconteste: logrou a proeza de me tirar da cama às dez horas da madrugada do domingo e, na maior cara de pau, nos conduziu, à mãe dela (que eu ainda chamo de Neném) e a mim, à feira que funciona na Avenida Eduardo Ribeiro. A cunhantã estava repleta de graça e boçalidade, com integral consciência de seu domínio absoluto no território sentimental que governa com mão de ferro. Lá fomos nós, Lucinha na direção e eu no banco de trás do carro, montando guarda para a cadeira a partir da qual a “Perigosa” se deleitava com um desenho da PepaPig.”

E ainda esta outra sobre o início do período da curiosidade: “A um mês de completar quatro anos de vida, Helena Beatriz tem pisado fundo no acelerador da curiosidade. A fase dos “porquês” aflorou em toda a sua exuberância e as perguntas desconcertantes se sucedem. Caía um temporal tipicamente amazonense e ela, toda faceira e aconchegada no meu colo, lançou-me este verdadeiro desafio: “Vô, por que a gente chama chuva de chuva”? Sábios de todo o mundo, eu os convoco para a solução do enigma. Seria eu um rematado cretino se tentasse explicar a origem latina da palavra, tentando convencê-la de que, com a evolução da língua, o “pluvia” acabou se transformando na nossa velha e cansada “chuva”. Simplesmente me calei, na esperança de que a volubilidade da criança se impusesse à cobrança da resposta, que o adulto não sabia dar. O milagre aconteceu e eu fui salvo do vexame por um membro da “patrulha canina”, uma cadelinha bombeira chamada Marshall, pela qual ela tem especial predileção, a ponto de usar uma fantasia da personagem.

Às vezes a pergunta é curiosa, mas, com o mínimo de esforço é possível encontrar uma explicação lógica. Deitada, mas embromando para não dormir, Helena se vira para a avó e ataca: “Vó, por que quando a gente pensa, pensa em shopping”? Bingo. A própria avó, se ficar uma semana sem ir a um shopping, passa mal e tem que ser acudida com sais aromáticos para evitar um delíquio. A mãe, a Lucinha, tinha dezesseis anos quando foi inaugurado o primeiro shopping de Manaus. Frequentou tanto a nova casa que eu lhe mandei fazer um cartão de visitas, dando como endereço o do empreendimento comercial. Temos, pois, que aí a genética é suficiente para dar a resposta adequada, conquanto os desdobramentos da curiosidade possam ter consequências catastróficas: já pensou se a pirralha pergunta “o que é genética”?

Agora, Helena já lê e até escreveu uma história curta sobre um hipotético cachorrinho. Rendo-lhe as minhas homenagens. Ela merece.


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