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O relato abaixo diz respeito a um fato efetivamente ocorrido na última década do século passado. Encontrei-o, ao remexer em meus alfarrábios, entre um dos textos que escrevi para o hoje extinto Jornal do Norte, no ano de 1996. Republico-o com algumas correções e pequenos adendos que em nada lhe alteram a essência. Trata-se, como meu escasso leitor verá, de inusitada experiência no campo da segurança pública, de tal maneira que considerei plausível divulga-lo, quando nada para revitalizar o testemunho de que, em matéria de besteira, não existe o impossível. Quando muito, o improvável. Deu-se assim o episódio:

João (é claro que a semelhança do nome com pessoas vivas terá sido mera coincidência) é um dos muitos brasileiros cujo hobby é o consumo da canabis sativa, plebeiamente conhecida pela alcunha de maconha e que não entra no catálogo da Souza Cruz. Nem poderia, já que o simples cigarro de tabaco comum foi erigido à categoria de mal do século, faltando apenas que um dos nossos prolíferos legisladores proponha sua criminalização, marcando-o com o timbre da hediondez.

Esse fato, de raríssima incidência no meio social caboclo (brasileiro mesmo, diga-se de passagem), chegou ao conhecimento dos mantenedores da ordem e, de pronto, foi providenciada diligência para recolher aos costumes o indigitado poluidor do meio ambiente e dos próprios pulmões. Partiram as viaturas, com seus ocupantes fortemente armados, numa precaução de todo em todo necessária diante da dimensão do perigo.

Chegada a caravana ao local do crime (um barraco perdido no meio de um bairro soturno e mal iluminado), o João, que não é leso, estava viajando, não se sabe até hoje se efetivamente ou apenas na realidade virtual produzida pelos eflúvios da marijuana, que, dizem, tem esse poder de realizar o sonho científico do teletransporte.

O certo é que do João mesmo não se encontrou nem a sombra, apesar das intensas buscas realizadas, de sorte que parecia frustrada essa megaoperação destinada a pôr um fim no crime organizado e na criminalidade violenta. Teria sido uma perda de tempo e de dinheiro, coisa impensável no serviço público tupiniquim.

Mas eis senão quando os treinados e experientes ouvidos dos agentes da lei foram feridos pelo latir agudo da Morena, uma fila brasileira, que o João, entre um baseado e outro, alimenta e acaricia no quintal de sua residência. Acesos os holofotes e convocado o esquadrão especial, confirmou-se a presença do animal, prontamente delatado pelos vizinhos e curiosos como parceira incondicional do João. Eram os prenúncios da delação premiada, este instituto que endeusa alcaguetes e tende a substituir a investigação pura e simples.

Estava resolvido o imbróglio, por meio de uma solução que o saudoso Stanislaw Ponte Preta gostaria de ter imaginado para colocar no samba do crioulo doido. O imperioso era não perder a viagem e mostrar ao público a eficiência do aparato que o protege em qualquer circunstância.

Como o encarceramento do João era imperativo da segurança pública e exigência da própria segurança nacional, deram voz de prisão à Morena e lá se foi ela, entre um rosnar e outro, dormitar numa cela da cadeia, condicionado seu retorno à liberdade ao comparecimento do maconheiro, para substituí-la no cárcere.

Não sei se algum coleguinha inovou nos meandros do processo penal, impetrando o primeiro hábeas corpus canino da história do judiciário brasileiro. Afinal de contas, a bichinha não tinha sido condenada nem em primeira instância e lhe deveria ter sido assegurado o direito à presunção de inocência. Igualmente desconheço se o amor do João pela cadela era tão grande a ponto de leva-lo ao sacrifício exigido.

Sei apenas que entre tragédias e besteiras, este povo vai dando um jeito de viver.

Em adendo atual, esclareço que, quando fui Secretário de Justiça, deparou-se-me situação muito pior: em inspeção a um presídio em Itacoatiara, lá encontrei um ancião que estava recolhido porque seu filho, supostamente autor de um homicídio, se achava foragido. A polícia prendeu o velho, como forma de obrigar o possível criminoso a comparecer à delegacia. É evidente que mandei colocar o pobre homem imediatamente em liberdade. Parece mentira.


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