Se eu soubesse, cantaria para espantar meus males. Porque não sei mais onde estou ou para onde estão me levando. Sempre amei o meu país e não nego até uma ponta de ufanismo. O Brasil verde e amarelo que era embalado nos sonhos da juventude como pátria de iguais. Não apenas o pavilhão hasteado nos jogos da seleção. Muito mais. Mais daquele amor que se nutre pela terra-mãe, em que estão assentadas as raízes das vidas de todos os seus filhos. E as raízes a alimentarem o caule com a seiva de um patriotismo belo, porque sincero, fraterno, porque amigo.

Temporais balançaram as árvores dessa floresta cívica. Dias houve (que dias!) em que a placidez foi perturbada pela violência da brutalidade pura e simples. Pelo só crime de pensar brasileiros foram presos, alguns torturados, outros assassinados e outros, ainda, lançados às brumas eternas porque desapareceram como num passe de mágica. Foi um pesadelo. Um horrendo e frenético pesadelo, que durou a longa noite dos vinte anos de insensatez.

Veio o despertar, que já não era possível suportar a angústia daquela escuridade. A canção da esperança foi entoada pelas ruas, aquela mesma esperança que, então, semeou verdes campos, na certeza de que, dali, sairiam os frutos da liberdade. E eles afloraram, tênues e tenros, mas viçosos, sendo a visão deles a recompensa pelas duas décadas do obscurantismo e da repressão.

A colheita, entretanto, não foi o que se esperava. A primogênita dos novos tempos, chamada democracia, teve seu nome inscrito no histórico registro de uma Constituição. Nem por isso se desenvolveu sem percalços. Interesses grupistas passaram a se manifestar, no que poderia ser apenas a movimentação de acordo com as regras do jogo. Mas não eram só isso. Eram mais. Traduziam a busca do poder pelo poder, sem maiores considerações com o desiderato maior de uma sociedade que se pretende civilizada ou, pelo menos, racionalmente organizada.

O Judiciário se infla, espicaçado por um Ministério Público travestido de super-herói e a Constituição começa a ser “interpretada” mesmo quando sua letra era clara, cristalina, sem nenhuma dificuldade de entendimento. A prisão passou a ser considerada a panaceia universal, com a inevitável propagação dos ares irrespiráveis de um ambiente policialesco.

O Congresso se autocastrou, mergulhando num círculo vicioso de inoperância e desmandos em que a proliferação da atividade legislativa se fez mais voltada para consagração de ideias retrógradas, quando não inúteis. Dividido entre bancadas esdrúxulas (da bala, evangélica, do agronegócio) não conseguiu vislumbrar e percorrer o caminho da sensatez mais primária.

Ao Executivo chega um partido que, pretendendo representar os trabalhadores, tratou-os a estes como deficientes, na medida em que implantou um sistema paternalista, com um assistencialismo deslavado e infame. As bolsas e as cotas substituíram a competência e o mérito, de tal maneira que a preguiça e a burrice passaram a ser compensadas pelas inesgotáveis benesses do Estado.

Chegada a hora de novas escolhas, a grande surpresa: num polo, o homem que não se peja de elogiar torturadores, no outro, o homem que é a própria encarnação daquele malfadado assistencialismo. No meio, o vazio, o vazio sem discurso, sem método e sem horizontes. E só restaram os polos.

“E, no entanto, é preciso cantar”. Cantar como Chico Buarque, na certeza de que “amanhã será outro dia”. Cantar forte e alto como Martinho da Vila, deixando a tristeza pra lá, porque “a vida vai melhorar”. Só não é possível entoar um réquiem. Isso, nunca. O meu país não afundou sob o jugo de uma ditadura sanguinária. Não vai afundar, também, com os arreganhos inconsequentes dos que têm a violência como parâmetro de vida, nem com a leniência dos que já se revelaram inaptos para o exercício do poder.

Eu, ainda que sozinho, entoo meu canto de amor ao Brasil. Os “verdes mares bravios” da terra de Alencar, assim como as águas do gigante de ébano que acariciam minha cidade, tudo há de ver o gigante se levantar do berço esplêndido e afirmar para o mundo que ser brasileiro ainda é um grande privilégio. O Brasil está acima, muito acima, de toda essa sórdida mesquinharia. Meus netos ainda hão de ver a confirmação disso.