BUENOS AIRES – Oscar Centeno, o motorista que registrou em oito cadernos um esquema de propina entre grandes empresas e funcionários da área de obras públicas do período kirchneristas, aceitou  ontem (2) um acordo de delação premiada e “forneceu muitas informações”, disse o procurador federal Carlos Stornelli. Ele é acusado de enriquecimento ilícito e formação de quadrilha para obter propinas.

O conteúdo de sua declaração não foi divulgado, mas suas anotações registram o transporte de US$ 160 milhões em subornos. Também incluem os nomes de políticos e empresários por ele conduzidos e os locais de partida e destino. 

Centeno já é considerado um delator na investigação, artifício jurídico que permite reduzir a pena de um acusado ou mudar seu regime de prisão em troca de informações sobre o esquema investigado. Neste caso, há 36 pessoas envolvidas. Já foram feitas 34 buscas nas casas dos suspeitos. Houve apreensão de 14 automóveis e cerca de US$ 50 mil em dinheiro.

Dez funcionários do governo, entre eles Roberto Baratta, ex-subsecretário de Coordenação e Gestão do Ministério de Planejamento – para quem Centeno trabalhava –, e dois empresários foram presos. Outros foram convocados a depor, entre eles a senadora e ex-presidente Cristina Kirchner.

Ainda nesta quinta-feira, o juiz Claudio Bonadio pediu autorização ao Senado para buscas nas três casas e no escritório de Cristina. Paralelamente, Bonadio também deve pedir nos próximos dias ao Senado que remova o foro privilegiado da ex-presidente para forçá-la a prestar declarações no dia 13 – não se sabe se como testemunha ou indiciada.

Este será o segundo pedido de remoção do foro privilegiado feito por Bonadio contra Cristina – ele fez um pedido em 2017 com o objetivo de prendê-la no contexto de outra investigação. Cristina, que nesta quinta-feira manteve silêncio, nega todas as acusações contra ela.

Como Cristina está sob proteção do foro privilegiado, não pode ser forçada a prestar declarações e seus imóveis não podem ser alvo de mandados de busca e apreensão. Ela também não pode ter a prisão preventiva declarada pelo magistrado. Fontes ligadas à senadora disseram que ela atenderá à convocação.

Segundo a apuração, durante ao menos dez anos muitas das empresas mais importantes da Argentina pagaram milhões de dólares em propina para obter concessões no setor de obras públicas. Segundo as anotações de Centeno, esse dinheiro chegava à casa particular dos Kirchners, à Quinta de Olivos ou ao escritório da chefia de gabinete.

Para Leandro Despouy, ex-auditor-geral da nação, os cadernos “vão abrir uma comporta na Argentina”. Segundo ele, é provável que os empresários acusados colaborem com a Justiça e se declarem vítimas de extorsão por parte do governo.