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Saio de casa pela manhã para cumprir a rotina diária. Vou certo de que haverá tempo de chegar ao primeiro compromisso e, depois, seguir para o escritório. Não sou madrugador. Todos os meus amigos sabem disso. Quem tem obrigação de acordar cedo é seringueiro e (não sei por que) militar; acho que é por causa de uma tal de ordem unida. Mas isso não vem ao caso. Importa é que eu seguia, lépido e fagueiro, ouvindo “A Cavalgada das Valquírias”, quando, não mais que de repente, sou obrigado a parar. O carro não podia seguir adiante porque umas (eu acho) cinquenta ou sessenta pessoas se aglomeravam no meio da rua, exibindo faixas e cartazes, enquanto ouviam um orador que se pronunciava a partir da carroceria de um Kombi.

Era impossível não ver a primeira faixa. Ela se exibia à minha frente, assim como se se oferecesse para o deleite de todos os circunstantes, mesmo daqueles que, como eu, ali não estavam por livre e espontânea vontade. “Lula livre” era o que nela estava escrito, enquanto os cartazes, pelo que pude perceber, insistiam em que o ex-presidente tem o mais legítimo dos direitos de ser novamente candidato. Baixei os vidros para me inteirar de como o Demóstenes da ocasião estaria verbalizando essas verdades assim proclamadas. Ouvi algo mais ou menos assim: “Companheiros, eu já nem sei bem se a nossa vocação é a urna. Acho que estamos mais voltados para a trincheira, para a guerrilha”. Não deu para perceber como o Guevara redivivo pretende implantar essa luta a partir daqui da Amazônia e propaga-la pelo cerrado, pelos pampas e pelo pantanal. Cuido seja uma questão de tática e de tempo: atingido o objetivo da faixa, tudo se ajustará e, protegidos pela política das bolsas e das cotas, todos marcharão, decididos e orgulhosos, para a empolgação do poder.

Consegui passar, afinal. Os manifestantes parece que tinham compromisso em outro lugar e liberaram a rua. Liguei de novo o som do carro, agora para ouvir algo mais suave como a suíte temática do “Lago dos Cisnes” e segui na velocidade que irrita todos os meus caronas: cinquenta por hora. Foi breve a felicidade. Não se passaram cinco minutos e estou diante de nova aglomeração. Agora era duplo o objetivo do protesto e das reinvindicações. Cuidava-se da violência doméstica e da discriminação contra gays, lésbicas e congêneres. Ao microfone, uma senhora equilibrava seus cento e dez quilos, ao mesmo tempo em que denunciava a desconsideração de seu companheiro que não a respeitava e diariamente a agredia. “Imaginem vocês – dizia ela – que ele agora está querendo que eu frequente uma tal de academia, assim como se eu fosse uma dessas dondocas, enfeitadas e maquiadas. Era só o que faltava”.

Foi a vez de um cidadão que reclamava de não conseguir registrar o seu nome masculino, depois que fez a opção definitiva de sua vida, largando a saia, que sempre o incomodou, para assumir o papel de chefe da família. Não sei bem a quem ele culpava. Deu-me a impressão de que era uma questão cartorária, a partir do entendimento do amanuense que insistia em que era indispensável uma decisão judicial para operar o fenômeno de transferir alguém de um sexo para o outro. Acredito ter ouvido uma sugestão no sentido de que o orador protestante continuasse “homem como seu pai foi” sem ligar para essas rabugices burocráticas.

Vejo-me de novo liberado da aglomeração. Otimista, acredito que agora não encontrarei mais obstáculos. Ledo engano. Mais um quilômetro e estou literalmente cercado pelos correligionários do capitão Bolsonaro que, animados pelas pesquisas, cuidavam de convencer os presentes de que a plataforma do candidato é única que reúne condições de tirar o país do buraco em que o colocaram as trapalhadas de dona Dilma.

A pedido de um militante, baixo o vidro do carro. Ele: “O senhor já conhece a plataforma completa do nosso candidato?” Disse-lhe que ainda não tinha tido oportunidade de desfrutar de tamanho prazer político e literário, mas que estava aberto, democraticamente, para encarar o assunto. Foi um alento para o jovem que prosseguiu por esta forma: “Nós vamos ampliar os programas sociais que hoje estão em curso, criando a bolsa revólver”. Curioso, quis saber como será esse avanço civilizatório. Ouvi que o governo vai assegurar que todos os cidadãos possam adquirir armas de fogo com oitenta por cento de subsídio oficial. O saldo será pago em até cinquenta meses, sendo que se o adquirente da arma, nesse período, matar pelo menos cinco bandidos, estará liberado de arcar com o remanescente.

Não havia mais tempo. Tive que voltar para casa, aonde cheguei com a mente absolutamente repousada, depois de uma jornada tão edificante.

P.S – Este texto já estava feito quando se noticiou o atentado contra o deputado Bolsonaro. Ato de barbárie, antidemocrático e estúpido. É lamentável.


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