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Na última semana antes do pleito no qual Vladimir Putin deverá ser reeleito facilmente para um quarto mandato como presidente da Rússia, o Kremlin lançou uma ofensiva multifacetada para garantir que o comparecimento às urnas supere os 60%.

Segundo analistas russos, é o percentual mínimo com que o governo trabalha para evitar questionamentos externos sobre a legitimidade da eleição. Os métodos são mais ou menos sutis.

Começando pelos últimos, no começo do mês um grupo de professores de um prestigioso instituto federal de Moscou recebeu mensagem em grupo de WhatsApp “convidando todos a manter o governo que nos emprega”.

Segundo um docente que pediu anonimato à Folha, o texto foi enviado pelo diretor de seu departamento. Não se trata exatamente de uma ameaça, mas foi lido assim. A reportagem não conseguiu falar com a instituição.

O Golos, ONG de monitoramento eleitoral, lista outros “incentivos”, como desconto na conta de gás durante o gelado inverno russo em algumas regiões e gratificações imprevistas a servidores.

Em Moscou, afora o relato dos professores, a investida putinista inclui um bombardeio de mídia por parte de seus apoiadores. Além de o presidente ter concedido rara entrevista à rede americana NBC (destinada ao público externo), dois documentários russos sobre ele foram lançados nos dias 7 e 11.

Ambos foram divulgados na rede VKontakte, o Facebook russo, para evitar questionamentos legais semelhantes aos feitos quando da exibição das hagiográficas entrevistas do cineasta americano Oliver Stone com Putin —que começaram a ir ao ar em um canal controlado pelo governo, antes de terem a difusão interrompida para não configurar propaganda.

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Já o prefeito de Moscou, o aliado do Kremlin Serguei Sobianin, escreveu em seu blog no domingo (11) um texto pedindo voto para Putin. Segundo o Comitê Eleitoral Central, autoridades são proibidas até de declarar seu voto —Sobianin respondeu ter expressado seu “amor pelo presidente”.

Ainda no campo da imagem, o governo anunciou um teste bem-sucedido do novo míssil hipersônico Kinjal, capaz de voar 10 vezes mais rápido que o som e de mudar de curso. “A arma é formidável, mas cara demais para ser usada em escala”, disse o analista militar Ruslan Pukhov.

RIVAL INABILITADO

A questão da abstenção é tida como central na disputa de domingo. Putin não tem rivais à altura. Seu maior antípoda, o blogueiro Alexei Navalni, está impedido de disputar por ter sofrido uma condenação judicial.

Apesar de ter liderado os maiores protestos recentes contra o governo na Rússia, ele só tinha 4% de intenções de voto ao longo de 2017, segundo o Centro Levada.

Putin tem acima de 60% nas sondagens, contra algo entre 5% e 7% do comunista Pavel Grudinin. Em 2012, quando era alvo de críticas da classe mais alta, Putin se elegeu com 63,6% dos votos —o comparecimento foi de 65%.

Isso fez Navalni, já impedido, pedir a seus eleitores que boicotassem o pleito. A tática é vista como burra pelo estrategista da campanha eleitoral da independente Ksenia Sobchak, Vitali Shkliarov.

“Putin já tem o eleitorado dele. Precisa trazê-lo, é claro, mas o que importa mesmo é saber se o eleitorado de oposição vai dar as caras”, disse o consultor em conversa no quartel-general de Ksenia.

A candidata, que pontua entre o traço e o 1%, é uma celebridade de TV e socialite, a “Paris Hilton russa”. É filha do ex-prefeito de São Petersburgo Anatoli Sobchak, o homem que abriu a porta da política a Putin nos anos 1990.

Isso fez com que boa parte da mídia e dos analistas russos questionasse se ela não estaria na campanha num jogo combinado, para dar verniz democrático à disputa —já que seu perfil lhe garante visibilidade no Ocidente.

“Isso é uma bobagem”, diz Shkliarov, sobre a insinuação.


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