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Mais um dos principais nomes da oposição à ditadura de Aleksandr Lukachenko na Belarus foi forçado a deixar o país neste sábado (5).

Olga Kovalkova, uma das assessoras da candidata independente de oposição Svetlana Tikhanovskaia, foi para Varsóvia, na Polônia, sob ameaças do regime bielorrusso.

“Representantes da milícia e do Ministério do Interior [responsável pela segurança interna da Belarus] vieram até mim e disseram que se eu não concordasse em sair [do país] enfrentaria longas prisões”, disse Kovalkova em uma entrevista coletiva em Varsóvia. “Foi dito que haveria mais [prisões] até o infinito.”

Kovalkova é uma das integrantes do Conselho de Coordenação, grupo que tenta negociar com a ditadura novas eleições no país, depois que o pleito realizado no dia 9 de agosto foi considerado fraudado por opositores, observadores internos e governos de outros países.

Na semana passada, ela e outros membros do conselho foram interrogados por um comitê formado a pedido do regime de Lukachenko para investigar as atividades do grupo.

Os opositores são acusados de “prática de ações destinadas a causar danos à segurança nacional da Belarus, cometidos usando a mídia ou a rede mundial de computadores internet”.

Kovalkova foi condenada a dez dias de prisão, pena que se encerrou neste sábado (5).

“Eles vieram para o centro de detenção onde eu estava isolada, me deram um chapéu, uma máscara e me tiraram da prisão. Eu estava deitada no banco de trás, para não ver nada.”

De acordo com seu relato, Kovalkova foi levada para a fronteira entre a cidade bielorrussa Bruzgi e a polonesa Kuznica, e de lá viajou para Varsóvia.

“Todas essas atividades não vão me impedir, vou continuar a agir politicamente e pretendo retornar à Belarus para continuar minhas atividades”, disse.

Neste sábado, autoridades polonesas confirmaram que Tikhanovskaia, considerada pelos opositores a vencedora legítima das últimas eleições, deve visitar Varsóvia na próxima quarta-feira (9) para se encontrar com o premiê polonês, Mateusz Morawiecki.

Dois dias após as eleições, Tikhanovskaia também deixou o país e se exilou na Lituânia. Ela havia assumido à Presidência da Belarus depois que seu marido, o blogueiro Siarhei Tikhanovski, foi preso pelo regime de Lukachenko.

Em entrevista à Folha, contou que recebeu ameaças em ligações anônimas e precisou mandar os filhos para o exterior.

Mais três jornalistas foram detidos neste sábado (5) quando cobriam a marcha das mulheres em Minsk: uma repórter do Portal Verde e dois da TV independente Belsat.

Na sexta-feira (4), seis repórteres que também haviam sido detidos enquanto trabalhavam na última terça, (1º) foram considerados culpados de “participar de protestos não autorizados” e condenados a três dias de detenção. Como eles já haviam ficado presos três dias, foram liberados no final da tarde.

Outros dois apresentadores de TV que foram condenados a dez dias de detenção apareceram hoje em vídeos divulgados pelo canal STV. Os dois gravaram mensagens bastante parecidas.

“Usando meu exemplo, quero alertar a todos aqueles que vão a comícios, ações e passeatas ilegais sobre as consequências. Haverá consequências, e as consequências podem não ser tão leves quanto você pensa. Não cometa ações ilegais”, disse Denis Dudinski.

”Com o meu exemplo pessoal, quero alertar a todos os que vão a manifestações ilegais sobre a responsabilidade legal que terão que suportar”, afirmou Dmitri Kokhno. Jornalistas bielorrussos disseram que eles parecem ter sido obrigados a fazer as declarações.

Kokhno foi detido por homens armados vestidos de preto quando estava perto de seu carro com sua mãe. Ele tem um filho pequeno e uma esposa no último mês de gravidez. O advogado de Dudinski não foi informado sobre o início do julgamento de seu cliente.

Quase um mês após o contestado resultado das eleições que deram mais um mandato a Lukachenko, os protestos continuam atraindo milhares de cidades bielorrussas.

Na manhã deste sábado, grupos de estudantes marcharam em Minsk cobertos com bandeiras vermelhas e brancas, um símbolo do oposição ao regime.

Vários deles foram arrastados e jogados em vans por agentes de segurança bielorrussos mascarados. De acordo com a Tass, agência russa de notícias, pelo menos 30 pessoas foram detidas pela participação em “protestos não autorizados”.

Horas depois, milhares de mulheres foram novamente às ruas da capital bielorrussa, gritando “tire as mãos das crianças”, em referência à repressão policial contra os estudantes, como um novo slogan dos atos contra a ditadura.

Uma mulher se posicionou diantes de agentes em fila mostrando fotos de outros manifestantes com hematomas e marcas de agressão no corpo. Há vários relatos de ativistas vítimas de tortura e espancamento durante os protestos e nos centros de detenção.

Centenas de católicos que participavam de uma reunião em solidariedade ao arcebispo de Minsk, Tadeusz Kondrusiewicz, impedido de voltar à Belarus, se juntaram aos atos na Praça da Independência, em Minsk.

Após o término do serviço religioso, padres e manifestantes marcharam ao redor do prédio conhecido como Igreja Vermelha e fizeram orações usando as luzes dos celulares como lanternas.

Lukachenko, que nega qualquer irregularidade no processo eleitoral, assim como as denúncias de repressão violenta contra os opositores, voltou a condenar as manifestações. Desta vez, porém, usou a pandemia de coronavírus como justificativa.

“Cadê o distanciamento social e tudo mais? Estamos fazendo tudo o que podemos para atrasar o momento em que nos despedimos dessa doença. Isso é inaceitável”, disse o ditador, neste sábado.

No início da pandemia, porém, Lukachenko foi um dos líderes mundiais que minimizaram a gravidade da Covid-19. Para ele, a pandemia era uma “psicose” e o coronavírus poderia ser tratado “com vodca”. (Folha de S.Paulo)


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