Neymar na reestreia no PSG.GONZALO FUENTES (REUTERS)
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El País | Durante 92 minutos Neymar Júnior sobreviveu como um grande à enxurrada de vaias que seu público lhe dedicou no Parque dos Príncipes. Pedindo a bola, melhorando a jogada em cada toque, unindo-se aos companheiros e se aventurando nas linhas contrárias para fazer o mais difícil no futebol, que é se desvencilhar dos marcadores e avançar para desequilibrar quando não há tempo nem para respirar. Indiferente ao tribunal popular que o sentenciou, aos 47 do segundo tempo afagou seus detratores. Marcou o gol da vitória. Um golaço. Revirando-se para arrematar de costas um cruzamento que não poderia ter interceptado de outra maneira. Cravou de meia bicicleta e subjugou um pobre Racing de Strasbourg, que pelo menos estava prestes a conseguir um empate em Paris. Foi assim que Neymar encerrou o penúltimo capítulo de uma carreira que ele transformou em uma viagem insolente.

“Hoje sou jogador do PSG e vou dar tudo em campo”, disse o brasileiro, depois do jogo, ansioso para exaltar seu feito. “Não tenho nada contra os torcedores, nada contra o PSG como clube. Todos sabem que meu desejo era sair e deixei isso bem claro. Não vou entrar em detalhes do que se passou nas negociações. É uma página virada (…). Não é a primeira vez que me vaiam. No Brasil, fora de casa, já me vaiaram muito (…) Não preciso que gritem meu nome, que me incentivem, o importante é que apoiem a equipe.”

Neste sábado ensolarado de final do verão em Paris, o futebol parecia algo execrável, artificialmente incrustado no coração do imponente bairro senhorial do 16º distrito onde se ergue o estádio do PSG, bloco de concreto, anomalia cultural, motivo para convocar gente mal-humorada que foi ao jogo para se queixar. Os futeboleiros são os únicos infelizes no 16º distrito porque, na maioria, não vivem no 16º distrito. Mas na maioria, na grande maioria, vaiaram Neymar. Não o perdoaram. Não houve complacência quando o brasileiro vestiu o uniforme do PSG novamente depois de mais de 100 dias afastado, em fuga, em rebelião, em casos policiais, em negociações desesperadas para deixar o clube que lhe paga 47 milhões de euros (212 milhões de reais) líquidos por temporada, por todos os motivos. Os torcedores do PSG assistiram à partida da Ligue 1 menos preocupados com o duelo com o fraco Strasbourg do que em julgar o trânsfuga frustrado que, paradoxos do jogo, foi o melhor em campo.

A liga francesa é a menos competitiva das seis maiores ligas europeias. Ali proliferam equipes como o Racing de Strasbourg, laboratórios de estudos antropológicos, coleções de atletas e malabaristas que praticam o futebol menos sofisticado do continente, organizações falidas onde predominam os espíritos distraídos, os jogadores sem formação tática moderna e, na dúvida, o acúmulo na defesa e longos lançamentos. É assim que joga este Racing, que só somava três pontos em quatro rodadas. E assim tão mal está o PSG, que até os 90 minutos não conseguiu resolver o problema elementar colocado pelo adversário. O persistente empate em zero denunciou uma crise de aparência moral que, se não se aprofundou, foi somente porque Keylor Navas defendeu dois chutes de Ajorque.

A tensão de Keylor Navas, estreante após sua vinda do Real Madrid no último dia de transferências, contrasta com o ambiente um tanto frívolo que o rodeia. O PSG parece um time chato. Enfraquecido no tédio da Ligue 1. Mentalmente exausto depois de um verão em que a única coisa que parecia preocupar a direção era negociar uma saída honrosa de Neymar, que no final não ocorreu.

O Strasbourg se protegeu em sua área com dez jogadores e o PSG se limitava a um assédio lânguido. Lesionados, Cavani e Mbappé, na ponta jogou Choupo-Moting. Por trás, da direita para a esquerda, Di María, Neymar e Sarabia. Entre as linhas, buscando o último passe, Neymar se expôs às vaias. Desde que entrou em campo com a cara amarrada, com ar de funeral, a torcida o vaiou. Toda vez que recebia a bola, toda vez que tentava driblar, toda vez que arriscava, que acertava ou falhava. Nem as vaias cessaram nem ele se acovardou. Pelo contrário, parecia que a resistência o estimulava. Aos 47 minutos, em um cruzamento de Gueye, Neymar respondeu se safando do beque no meio da área. Deu um giro e mandou o chute de meia bicicleta. Nem assim alguns dos que criticam pararam de xingá-lo.


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