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Você pega o telefone e liga para o número que lhe foi fornecido para as hipóteses de reclamação, elogio, solicitações e o mais que se possa imaginar. A máquina atende: “Você ligou para a assistência técnica da Real Operações do Brasil. Para sua segurança, esta conversa está sendo gravada. Você pode requisitar a gravação. O número do seu protocolo 2020153365372. Se quiser ouvir de novo o número do protocolo tecle um”. Como você não faz nada porque, além de inútil, o tal número é quilométrico, a máquina vai em frente: “Por favor, digite lentamente o número do seu CPF”. Você obedece. A máquina: “CPF inválido. Tente novamente. Lembre que você tem mais duas oportunidades de acerto ou a ligação será interrompida”.

Você, por via das dúvidas, consulta sua identidade para ver se não errou na digitação. Tendo acertado, você sente um alívio quando a máquina retoma o comando: “Para segunda via da sua fatura, tecle 2; para falar sobre problemas técnicos, tecle 3; para agendar uma visita técnica, tecle 3; para saber o clima e o tempo, tecle 4; para ouvir um disco de dupla sertaneja, tecle 5; para saber qual o último erro gramatical do ministro da Educação, tecle 6; para saber o nome do último jornalista a ser esculhambado pelo presidente da República, tecle 7; para saber qual a última árvore escalada por Jesus Cristo, segundo as visões da ministra Damares, tecle 8; para saber quem pode ir à Disney, segundo a cartilha do ministro Guedes, tecle 9; para aprender a fazer menos cocô e contribuir para a preservação, tecle asterisco; para falar com um de nossos atendentes, pressione a barra de espaço”.

Opções não lhe faltam e a sua curiosidade já foi despertada pela diversidade dos assuntos com os quais você pode implementar o diálogo com o simpático robô que o atendeu tão gentilmente. Vai daí que você aperta a tecla de número seis. A máquina: “O ministro da Educação, doutor Abraham Weintraub, cometeu, somente nesta semana, dois graves atentados contra a língua portuguesa: escreveu “paralisação” com z e grafou o verbo “incitar” com s. Se estiver satisfeito com a resposta, tecle 1; para ouvir novamente, tecle 2; para voltar ao menu geral, tecle 3”.

Como você não acredita no que ouviu, aperta a tecla 2. À exposição anterior, a máquina já atualizou sua informação: “O ministro da Educação escreveu “bem-vindo” sem o hífen”.

Você não quer desaprender o que já sabe de língua portuguesa e resolve não insistir no assunto e aperta o 3. De volta ao cenário principal, você decide saber como é essa história de que cocô e preservação ambiental estão ligados e, então, carrega no asterisco. A máquina, já com uma voz que lembra a do Cid Moreira, explica com paciência beneditina: “Você sabia que, fazendo cocô todos os dias, está contribuindo para a degradação do planeta? Não faça isso. O tema é tão grave que ocupou até a agenda do Excelentíssimo Senhor Presidente da República e é dele a recomendação que você vai ouvir agora: “Faça cocô dia sim, dia não”. Saiba que para enfrentar essa calamidade nacional, o governo federal está disponibilizando, através do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, um estoque de goiabas verdes, as quais serão distribuídas para a população. Vá a qualquer posto do Ministério mais próximo da sua residência e retire quantas goiabas sejam necessárias para que você e sua família deem essa contribuição indispensável para o desenvolvimento do país. Pátria amada Brasil. Brasil acima de todos”.

Novamente a tecla 3 é pressionada e você está de volta ao cenário geral. Aí pressiona a barra de espaço. A máquina: “Neste momento, todos os nossos operadores estão ocupados. Por favor aguarde que, em instantes, sua ligação será transferida”. Cinco minutos se passam, durante os quais seu aparelho pode ter tocado uma sinfonia ou um axé; depende de como está o seu astral. O som é interrompido e o robô: “Ainda não há linhas desocupadas. Não jogue seu telefone na parede. Seja paciente. Logo, logo, estaremos transferindo sua ligação”. Mais dez minutos e um ser humano se apresenta: “Aqui é Eleutéria, da Real Operações do Brasil. Com quem eu falo, por favor?” “Com José dos Anzóis Pereira” – “Senhor José, por favor digite lentamente o seu CPF e o nome de solteira da sua mãe”. – “Moça, o CPF eu já digitei e o que é que minha santa mãezinha tem a ver com esta conversa”. – “Questão de segurança, senhor José. Por favor, siga as minhas instruções ou eu vou ser forçada a estar encaminhando o senhor para o nosso setor de prevenção de catástrofes”. – “Está bem. Mas antes, será que a senhora poderia me informar como eu faço para mandar vocês à merda?”. – “O senhor está sendo grosseiro”. – “Não. É que, seguindo a orientação do presidente, o tal produto está escasseando e muita gente que nele devia estar se refestelando, não consegue encontrar o caminho”.

Fim do último ato.


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