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Sendo infinito o conhecimento, é natural que sejamos ignorantes quanto a determinado assunto específico. O saber universal é atributo das enciclopédias. Mesmo a faísca que acende a chama da genialidade não pode alcançar a plenitude; não vai se alastrar por toda a infindável planície onde se espraia tudo aquilo que nosso cérebro pode perceber, mas não tem condições de armazenar. Mozart não entendia de literatura e Machado de Assis não entendia de música. Entretanto, há que fazer um esforço de expansão. O que não é admissível é a conformação pura e simples, a permitir que o não conhecimento ocupe todo o espaço. Teremos aí a ignorância pura e simples. E como ela é triste! Façanhuda e indiferente ao mundo que a cerca, a ignorância não se peja de se exibir com pompa e com gala, alardeando com rugir tonitruante tudo aquilo que o mínimo de bom senso ocultaria, quando nada por um instinto elementar de pudor.

E por que assim vagueio por assunto tão diáfano? Logo eu, que jamais regateei no reconhecimento de minha própria ignorância? Mas é que me foi dado constatar que há ignorâncias maiores que a minha, o que, por si só, já representa uma façanha olímpica. Essa constatação, porém, não pode ser motivo de orgulho ou de desculpa. Nem eu pretendo isso. Mas também não quero que pareça que me enquadro na ponderação do escritor francês, para o qual “um sôt toujours trouve un plus sôt qui l’admire” (“um tolo sempre encontra um mais tolo que o admira”). Não; longe disso. Acho que me assiste o direito de verberar a ignorância alheia quando ela assume proporções catastróficas.

Pois não é que me encontrei diante de tal situação? Explico: li no jornal que uma senhora de nome Soraya, eleita senadora pelo estado do Mato Grosso do Sul, foi ao ministro da Educação indagar da possiblidade de implantar nas Universidades brasileiras o mesmo sistema e a mesma formatação que regem as escolas militares de ensino fundamental e médio. Que coisa! E o ministro (seria o caso dos tolos?) ponderou, entre um e outro erro de gramática, que isso não era impensável, aduzindo que já existe um caso no Brasil: o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Revelou ter visitado a instituição e manifestado ao brigadeiro que a dirige sua inteira aprovação ao que viu. Não havia nenhuma pichação e a Sua Excelência não foi dado presenciar nenhum grupo de universitários cabeludos e/ou mal vestidos, fumando maconha.

A senadora, como parece lícito deduzir, revela preocupação com a possibilidade de, no ambiente universitário hoje moldado, surgirem focos de contestação ao “status quo”, o que, por via de consequência, poderá ensejar rebeldia e protestos. Já vi esse filme. Em 1964, quando os militares depuseram o presidente e implantaram a ditadura, as universidades foram um dos primeiros alvos das medidas “antissépticas” com que os novos governantes iniciaram uma cruzada sem tréguas contra o que era, então, classificado genericamente como “comunismo”. Pensar era ser comunista. Ler era ser comunistíssimo e contra esse perigo vermelho não havia que tergiversar: a ferro e fogo era preciso cortar o mal pela raiz. E assim foi criado o DOI-Codi e assim foram ocupados os esconsos porões da ditadura, onde a tortura foi erigida a forma científica de obtenção da verdade.

Mas, veja-se a ironia: nem a ferocidade ditatorial chegou ao delírio de conceber ideia tão mirabolante quanto a da senadora Soraya. O regime, àquela época, solapou o quanto pôde o ensino público. Nas universidades, particularmente, foi implantado o sistema de períodos, com o não declarado objetivo de dificultar a unidade dos grupamentos estudantis. Se não há turmas homogêneas e contínuas, fica mais fácil evitar as aglomerações e a proliferação de pensamentos “não sadios”. Mas não se cogitou nunca de uniformizar os universitários nem de lhes impor a obrigatoriedade da ordem unida. Se assim tivesse sido, imagino que eu jamais conseguiria ir além da patente de acadêmico-soldado. Isso se tivesse a sorte de não ir parar no xilindró por não ter aprendido as regras insertas no Corpus Juris Bellicus Romanorum, em que se teria transmudado o Corpus Juris Civilis Romanorum.

Que tristeza! Como pode pensar de tal forma uma senhora que desempenha a segunda função política mais importante da República? Sinal dos tempos. Aqui mesmo nesta Amazônia continental, o secretário de educação da Rondônia ensaiou censurar os livros de Machado de Assis e de outros ícones da nossa literatura. Parece mentira? Parece, mas é verdade. Deplorável verdade.

Universidade e liberdade de expressão são conceitos visceralmente ligados. Impossível conceber uma universidade sem debate e sem contradição, sem tese e antítese, de tal forma que a síntese brote tão próxima do verdadeiro quanto possível. Por isso, choro ao ver o desempenho da senadora Soraya. E faço-lhe um apelo: Ó, Soraya, não envergonhes a tua saia.

P.S. – Lucinha, não satisfeita com a advocacia, para a qual está habilitada há mais de dez anos, resolveu enfrentar novos desafios: recebe neste sábado o diploma de engenharia civil. É possível que o raciocínio cartesiano da minha caçula se dê melhor com as leis da física, que não admitem interpretação, do que com a volubilidade do Direito e de alguns julgadores. Meus filhos continuam a me dar orgulho. Parabéns e muito obrigado, Neném.


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